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Deputados dão menos importância à redução da desigualdade e rejeitam ainda mais a participação direta do povo, mostra estudo inédito

O eleitor brasileiro vai às urnas esperando do regime político tanto a redução da pobreza e da desigualdade quanto mecanismos de participação direta — plebiscitos, referendos. No Congresso, as duas pautas encontram resistência, mas em graus diferentes: os deputados dão menos peso à redistribuição de renda como parte do que é ser democracia, e rejeitam ainda mais a participação direta, que tira poder de decisão do próprio mandato. Essa é a conclusão de um estudo do INCT-ReDem, com base em entrevistas estruturadas aplicadas a mais de 1.500 cidadãos e a 170 deputados federais.

A pesquisa quantifica um abismo na representação política do país: enquanto a população cobra justiça social como obrigação indissociável do Estado, os parlamentares tratam o tema como uma agenda secundária. Ela perguntou aos dois grupos, eleitores e deputados federais, o quanto eles avaliam como essenciais, numa escala de 0 a 10, atributos como eleições livres, redução de desigualdades e participação popular.

Segundo o levantamento, quase 1 em cada 3 brasileiros (32,8%) considera liberdades civis, redistribuição e participação direta igualmente essenciais à democracia, patamar bem mais exigente do que o dos parlamentares. Na Câmara, a prioridade se inverte. O perfil predominante entre os eleitos em 2022 combina liberdades e pauta social, mas dispensa participação direta: são 39,3% dos deputados, ante 22,5% da população.

“Quando o eleitor entende que reduzir a desigualdade faz parte do que define o regime, ele cobra isso como obrigação democrática, não como escolha de governo. O parlamentar que não compartilha essa definição trata o mesmo tema como uma agenda entre outras, negociável conforme a conjuntura”, explica o cientista político Ednaldo Ribeiro, pesquisador da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e um dos autores do estudo.

A barreira contra políticas de distribuição de renda tem raízes no perfil socioeconômico do Legislativo. Os deputados, com renda e escolaridade acima da média nacional, tendem a dar menos peso à redução das desigualdades como parte do que define a democracia — um padrão que, segundo os autores, ajuda a explicar por que o tema fica em segundo plano entre os parlamentares.

O segundo fator é a profissionalização política, isto é, quando o mandato é uma ocupação a proteger. Isso ajuda a explicar por que a rejeição é ainda maior à participação direta dos cidadãos, pois tiraria poder de decisão do próprio cargo eletivo. O ponto de maior proximidade entre povo e Congresso segue nas regras básicas do jogo, como eleições livres e liberdade de oposição, ainda que a diferença aí também seja estatisticamente significativa, só que menor.

“Eleições livres, liberdade de oposição e liberdade de imprensa são as regras que constituem a competição eleitoral, ou seja, as regras que criam e protegem o próprio mandato. O acordo aparece onde o interesse do parlamentar e a norma democrática coincidem. A divergência aparece onde a norma cobra resultado ou impõe controle externo”, afirma Ribeiro.

Essa distorção, porém, tem diferença entre os espectros políticos. Entre os deputados de direita, quase 6 em cada 10 (59,1%) dispensam a participação popular direta, contra 2 em cada 10 (21,8%) dos próprios eleitores de direita — a maior distância de todo o Congresso; no centro, essa diferença quase desaparece.

Na pauta social, deputados de esquerda dão mais peso à redistribuição de renda do que os próprios eleitores deles — nesse recorte, é o parlamentar que puxa a pauta à frente da base. Entre os deputados de direita acontece o oposto: são os eleitores que cobram mais redistribuição do que os próprios representantes valorizam, e a distância entre os dois lados ali é a maior de todo o Congresso, sobretudo na extrema direita.

Os autores fazem uma ressalva importante: os dois surveys (questionários) foram aplicados com seis meses de diferença, e o estudo não prova qual dos dois motivos — a origem social dos deputados ou a lógica do cargo — pesa mais; são explicações possíveis, não comprovadas.

A percepção de que o governo não atende às necessidades urgentes da sociedade alimenta o distanciamento entre a rua e o plenário — e, segundo a literatura sobre representação política, é esse tipo de desilusão que abre espaço para discursos que prometem falar direto ao povo, sem intermediários.

Fonte: Agência Bori
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

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