ColunasPolíticaUncategorized

Desalinhamento democrático: Congresso é visto como distante, pouco transparente e indiferente às prioridades sociais

A 166ª rodada da Pesquisa CNT de Opinião (novembro/2025) revela um paradoxo que define a crise de representação brasileira: enquanto 56,3% dos eleitores declaram intenção de votar em novos nomes para o Congresso em 2026, quase metade da população (42,9%) sequer lembra em quem votou em 2022. É a combinação explosiva entre desejo de mudança e memória curta — um fenômeno que garante sobrevida aos atuais parlamentares, apesar da rejeição generalizada.

Um Congresso avaliado como problema — não como solução

A imagem do Congresso Nacional permanece em terreno crítico. A maioria dos entrevistados classifica o desempenho como Regular ou Negativo, consolidando um desgaste estrutural.

Avaliação Negativa (Ruim + Péssima): 37,0%
Avaliação Positiva: apenas 17,0%

Mas o dado mais alarmante não está nas notas, e sim na percepção de impacto:
40,8% afirmam que o Congresso atrapalha o país, enquanto 32,4% enxergam sua atuação como indiferente — ou seja, irrelevante.
A crise não é apenas de imagem, é de utilidade pública.

Descolamento total das prioridades do povo
A pesquisa aponta um diagnóstico cristalino: o eleitor não sabe para quem o Congresso trabalha, mas tem certeza de que não é para ele.

Segundo o estudo:
49,8% acreditam que o Legislativo defende Políticos/Partidos
32,1% — Empresários e setores organizados
Apenas 16,4% — o povo em geral

E, curiosamente, o Congresso é visto como defensor do Governo Federal (19,6%) mais do que da sociedade
O retrato é de um Parlamento fechado sobre si mesmo.

Democracia sem escuta e sem transparência
Dois indicadores aprofundam o distanciamento:
A opinião pública influencia apenas 9,0% das decisões do Congresso
A atuação é percebida como Nada Transparente por 38,6% dos entrevistados; só 10,5% a consideram transparente

Em uma democracia representativa, quando o representante não escuta e não explica, a confiança colapsa — e foi exatamente isso que aconteceu.

O país quer mudar — mas não sabe quem deve sair
O clima de renovação é evidente:

56,3% querem novos nomes para deputado e senador
No entanto, a renovação eleitoral esbarra em um fator decisivo: a ausência de memória e acompanhamento do mandato.
42,9% não lembram em quem votaram
15,1% sequer votou
Apenas 15,1% acompanha o parlamentar em quem votou

Sem fiscalização, não há punição — e sem memória, não há renovação plena. É a amnésia eleitoral que vira capital político.

Como o eleitor escolhe seu voto? Política ainda é feita no território
Os critérios de escolha revelam menos ideologia e mais pragmatismo:

Histórico de trabalho e entregas na região: 39,4%
Integridade/ética: 19,9%
Voto ideológico: 10,4%
Defesa de causas específicas: 5,8%

Ou seja: quem tem mandato, obra entregue e comunicação ativa larga na frente — especialmente em um cenário em que o eleitor esquece, mas reconhece quando vê.

Estratos que agravam o desgaste

O estudo também mostra que a insatisfação é mais intensa entre:
homens,
população mais velha,
pessoas com maior renda e escolaridade.

Regionalmente, o Sul lidera a avaliação negativa, enquanto o Nordeste apresenta índices mais positivos — reforçando diferenças políticas já conhecidas.

O que esta pesquisa diz sobre 2026
O país vive um desencanto profundo com o Congresso — porém não necessariamente com seus integrantes. O eleitor quer mudar “o sistema”, mas não lembra quem o compõe.

A lição estratégica é direta:
Mandatos que comunicam sobrevivem
A renovação será parcial, não estrutural
A disputa será ganha pelo trabalho visível, não pelo discurso abstrato

Em síntese: o Brasil quer virar a página, mas ainda não decidiu quem deve sair do livro. A crise de representação não nasce apenas da política — nasce também da memória curta do eleitorado e da ausência de vínculo entre voto e cobrança.
Enquanto o Congresso permanecer distante, opaco e autodefensivo, a democracia seguirá mancando entre rejeição e repetição.

Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em marketing eleitoral.

Foto: Divulgação

Related posts

Presidente de associação de pessoas com epilepsia convoca para ato na Barra

Fulvio Bahia

Alan Sanches, deputado estadual da Bahia, morre aos 58 anos

admin

Bruno Reis afirma que vai abrir novos restaurantes populares com refeições gratuitas para a população carente

Fulvio Bahia

Deixe um comentário

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência. Nós assumimos que você concorda com isso, mas você pode desistir caso deseje. Aceitar Leia Mais