Avaliar é uma das tarefas mais sensíveis — e, ao mesmo tempo, mais estratégicas — da gestão pública. Em muitos contextos, a avaliação ainda é vista como um ritual burocrático, restrito a relatórios formais, prestação de contas ou cumprimento de exigências legais. No entanto, para quem deseja governar com propósito e resultados reais, avaliar é, antes de tudo, um exercício de aprendizado e maturidade institucional.
O início de um novo ciclo de gestão, ou de um novo ano, é o momento ideal para olhar para trás com honestidade e perguntar: o que não deu certo, por que não deu certo e o que não podemos repetir.
Avaliar não é punir, é aprender
Um dos grandes equívocos na administração pública é associar avaliação à busca por culpados. Essa lógica gera medo, silenciamento e resistência. Em vez de fortalecer a gestão, ela enfraquece as equipes e impede a inovação.
Avaliar com propósito é o oposto disso. É criar uma cultura em que erros são reconhecidos, analisados e transformados em aprendizado coletivo. Não se trata de relativizar falhas, mas de assumi-las com responsabilidade, compreendendo suas causas estruturais, técnicas ou decisórias.
Gestões que não avaliam seus erros estão condenadas a repeti-los. E, no setor público, repetir erros significa desperdiçar recursos escassos, frustrar expectativas da população e comprometer a confiança nas instituições.
O papel da equipe no processo de avaliação
Nenhuma avaliação séria pode ser feita de forma isolada, apenas a partir do gabinete. Quem está na ponta da execução — servidores, técnicos, coordenadores e gestores intermediários — possui uma leitura concreta da realidade, dos gargalos e das limitações que muitas vezes não aparecem nos indicadores formais.
Por isso, avaliar com a equipe é indispensável. É no diálogo franco com quem executa que surgem respostas para perguntas fundamentais:
- Onde os processos travaram?
- Quais decisões foram mal dimensionadas?
- O que foi planejado sem considerar a realidade operacional?
- Que práticas insistimos em manter, mesmo sabendo que não funcionam?
Quando os servidores são convidados a participar da avaliação, deixam de ser vistos apenas como executores e passam a atuar como coprodutores de soluções. Isso fortalece o engajamento, a corresponsabilidade e o compromisso com os resultados futuros.
Identificar falhas para apontar soluções
Avaliar não pode se limitar ao diagnóstico. Identificar falhas sem apontar caminhos de superação gera frustração e sensação de impotência. Uma avaliação orientada por propósito precisa avançar para o campo das soluções concretas.
Isso implica revisar processos, redefinir prioridades, ajustar metas, investir em capacitação, melhorar fluxos de trabalho e, em alguns casos, mudar posturas e modelos de gestão. Significa reconhecer que nem todas as decisões tomadas no passado foram as mais adequadas — e que decidir diferente também é um ato de liderança.
Esse movimento exige coragem. Mas é justamente essa coragem que diferencia gestões que apenas administram daquelas que evoluem e entregam resultados consistentes.
Avaliar também é reconhecer e fortalecer os acertos
Avaliar de forma honesta não significa olhar apenas para aquilo que falhou. Uma avaliação madura e orientada por propósito reconhece que, mesmo em contextos difíceis, há acertos, avanços e boas práticas que precisam ser valorizados. Ignorar os pontos positivos é tão prejudicial quanto ignorar os erros.
Reconhecer o que deu certo fortalece a autoestima institucional, gera senso de pertencimento nas equipes e cria referências concretas de que é possível fazer bem feito no serviço público. Quando os acertos são evidenciados, as pessoas compreendem que seus esforços produzem impacto real — e isso é um poderoso fator de engajamento.
Mais do que elogiar, é fundamental sistematizar as boas práticas. Muitas gestões acertam, mas não registram, não documentam e não transformam essas experiências em método. O resultado é que, com o tempo, os acertos se perdem, não são replicados e dependem exclusivamente de pessoas específicas, e não da instituição.
Uma avaliação bem conduzida permite identificar:
- políticas que geraram impacto positivo;
- processos que funcionaram com eficiência;
- decisões que produziram bons resultados;
- posturas de liderança que fortaleceram equipes;
- iniciativas que aproximaram a gestão da população.
Esses aprendizados precisam ser organizados, registrados e compartilhados. Quando os acertos são transformados em referência, eles deixam de ser exceção e passam a orientar novas ações, novos projetos e novas decisões.
Valorizar os pontos positivos também ajuda a equilibrar o processo de avaliação. A gestão deixa de ser vista apenas como um espaço de cobrança e passa a ser reconhecida como um ambiente de aprendizagem, reconhecimento e evolução contínua. Isso cria uma cultura organizacional mais saudável, colaborativa e comprometida com resultados.
Avaliação como base para o planejamento futuro
Não existe bom planejamento sem uma avaliação honesta do passado. Planejar ignorando erros anteriores é construir metas sobre bases frágeis. A avaliação qualificada permite que o planejamento do novo ciclo seja mais realista, mais estratégico e mais conectado às necessidades do território e das equipes.
Quando a gestão aprende com seus próprios erros e consolida seus acertos, ela ganha capacidade de:
- evitar retrabalho;
- reduzir desperdícios;
- aumentar a efetividade das políticas públicas;
- fortalecer a confiança interna e externa.
Avaliar, nesse sentido, não é olhar para trás com arrependimento, mas olhar para frente com mais inteligência.
Aprender com os erros e acertos é liderança com propósito
A liderança pública com propósito não se define pela ausência de falhas, mas pela forma como elas são enfrentadas. Reconhecer limites, ouvir a equipe, aprender com a experiência e ajustar rotas são atitudes que constroem credibilidade e fortalecem instituições.
Para o próximo ciclo, o convite aos gestores públicos é claro: avaliar com coragem, aprender com humildade, valorizar os acertos e decidir com responsabilidade. Só assim será possível romper ciclos de ineficiência e construir uma gestão pública mais madura, humana e orientada a resultados reais.
Porque, no serviço público, errar pode acontecer. Persistir no erro — ou desperdiçar os acertos — é que não pode ser uma escolha.
Sobre: Emanuel Ribeiro Filho é psicólogo e gestor público, com atuação voltada à modernização da administração pública, ao fortalecimento da governança e à entrega de resultados com foco nas pessoas.
É autor do livro “Gestão Pública com Propósito: práticas para uma administração eficaz, humana e inovadora”, no qual defende uma gestão pública mais humana, estratégica e orientada a resultados.
Atua como coordenador de Projetos no CIAPRA Baixo Sul e possui ampla experiência em planejamento, articulação institucional, desenvolvimento territorial e formação de gestores públicos.
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