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O Senado é a casa dos ex-governadores

No tabuleiro da política brasileira, poucas peças se movem com tanta previsibilidade quanto o governador que, ao fim de sua jornada no Poder Executivo, busca abrigo nas cadeiras de veludo azul do Senado Federal. Atualmente, o Senado não é apenas uma casa legislativa, mas um verdadeiro ambiente de experiência administrativa: cerca de um terço da composição atual é formada por políticos que já chefiaram seus estados.

O Senado Federal é, por excelência, a “Casa dos Estados”, mas a prática política brasileira o transformou em algo mais específico: a “Casa dos ex-Governadores”. Essa transição não é apenas um movimento de carreira, mas uma estratégia de preservação de capital político. Atualmente, a Casa funciona como um centro de gravidade para quem dominou as máquinas estaduais, permitindo que lideranças sobrevivam a trocas de governos locais e mantenham influência sobre o orçamento federal.

Essa hegemonia é nítida quando observamos os nomes que hoje ocupam o plenário. No Norte, figuras como Eduardo Braga e Omar Aziz (Amazonas), além do veterano Jader Barbalho (Pará), Chico Rodrigues (Roraima), Confúcio Moura (Rondônia), utilizam o Senado para manter vivo o peso de seus grupos regionais. No Sul e Centro-Oeste, veteranos como Esperidião Amin (Santa Catarina) e Jayme Campos (Mato Grosso) mantêm a tradição.

No Nordeste, o fenômeno é ainda mais expressivo. Renan Calheiros (Alagoas) atravessa décadas como peça-chave em Brasília, enquanto o Ceará e o Piauí projetaram seus ex-gestores, Cid Gomes, Camilo Santana, Wellington Dias e Marcelo Castro, diretamente para o centro das decisões nacionais.

A Bahia: uma linhagem de senadores-governadores
Na Bahia, essa trajetória é a espinha dorsal da política republicana. O caminho entre o Palácio de Ondina (sede do governo) e o Senado Federal é extremamente comum. Desde o início da República, a Bahia teve mais de 20 governadores que também ocuparam uma cadeira de senador em algum momento da carreira. Olhando para o passado, nomes como J.J. Seabra, Juracy Magalhães, Lomanto Júnior, Luís Viana Filho e o próprio Antônio Carlos Magalhães (ACM) consolidaram suas lideranças nacionais a partir da cadeira senatorial após deixarem o Governo do Estado. Mais recentemente, vimos Jaques Wagner e Otto Alencar trilharem o mesmo caminho, sendo Wagner o líder do Governo Lula no Senado.

É no clássico O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, que encontramos a explicação filosófica para esse movimento. Maquiavel ensina que o governante precisa de virtù (habilidade e astúcia) para conquistar o poder, mas precisa entender a necessità (as circunstâncias do tempo) para mantê-lo.

Para o filósofo florentino, “estar desarmado torna-te desprezível”. No contexto democrático moderno, o “desarmamento” de um líder
político é ficar sem foro, sem tribuna e sem o controle de verbas. Por isso, a migração para o Senado é a aplicação prática da virtù: é a percepção de que, para continuar protegendo seu “principado” (o estado), o líder precisa de uma nova fortaleza. O Senado é essa fortaleza.

Diante deste panorama histórico e teórico, o cenário para 2026 na Bahia desenha-se como um desdobramento natural dessa lógica. A disputa de Jaques Wagner e Rui Costa por cadeiras no Senado — somando-se ao também ex-governador e já senador Otto Alencar — não é uma coincidência, mas o cumprimento de um rito de passagem político. Além disso, o trio Wagner, Rui e Jerônimo consolida o projeto do PT no estado e fortalece a reeleição do presidente Lula – uma vez que a Bahia é o quarto maior colégio eleitoral, simbolicamente, a locomotiva de votos no Nordeste e, ainda mais uma particularidade: a Bahia é o único estado da federação que pode ter três governadores em uma chapa majoritária.

Quando ex-governadores importantes como Wagner e Rui miram o Senado, eles estão assegurando que o projeto político que iniciaram no Executivo estadual tenha voz e influência direta nas decisões orçamentárias e legislativas de Brasília. Em suma, o Senado brasileiro consolidou-se como o “Olimpo” onde as lideranças regionais se nacionalizam para garantir que, mesmo fora do palácio estadual, suas mãos continuem firmes no leme da história.

Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais

Foto: Divulgação

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