Colunas

Da persuasão à mobilização: o que está em jogo nas eleições de 2026Yuri Almeida*

Há uma grande dissonância entre os indicadores econômicos oficiais (PIB em crescimento, inflação controlada e desemprego baixo) e a percepção da maioria dos brasileiros, onde 43% afirmam que a economia piorou e 61% dizem ter menos poder de compra. A chave para essa contradição é o conceito de affordability (relação entre renda e custo de vida).

Segundo a Quaest, 55% dos entrevistados se sentem frustrados, pois reconhecem que ganham mais, mas a vida não melhorou devido à explosão do custo de vida. Este paradoxo impede que os bons números oficiais se traduzam em dividendos políticos para a reeleição do presidente Lula, refletindo uma tendência global de enfraquecimento da correlação entre sentimento econômico e aprovação presidencial.

Gratidão não se traduz em votos
Apesar de o Governo Federal apresentar um pacote robusto de “entregas” e políticas sociais, como o Bolsa Família, que historicamente beneficiaria os incumbentes, os dados mostram que a aprovação do governo não registra saldo positivo há mais de um ano. Isso ocorre porque a “dinâmica da gratidão automática” parece ter se esgotado.

Para cerca de 70% dos brasileiros, os programas sociais deixaram de ser vistos como favores e passaram a ser percebidos como direitos consolidados, uma vez que a rede de proteção foi mantida e ampliada por governos anteriores (Jair Bolsonaro e o Congresso). O desafio da comunicação política é reconstruir a narrativa, mostrando que as escolhas políticas concretas (votar em A ou B) levam a desfechos diferentes na vida das pessoas.

Um país que se descobriu mais à direita
Com a perda de força explicativa da economia e das entregas de governo, os valores ganharam espaço na explicação do voto. O Brasil passou por um deslocamento para posições mais conservadoras e tradicionais. A autodeclaração de direita aumentou de 28% para 36% desde 2007, e a de centro subiu de 28% para 37%. A esquerda, por sua vez, recuou a 23%. A maior novidade é que apenas 4% permanecem indefinidos, em comparação com 22% em 2007.

Essa migração se deu porque o discurso da direita conseguiu organizar valores conservadores que antes não se reconheciam em nenhum projeto político. Curiosamente, a juventude, embora mais conservadora em alguns temas, tende a buscar o centro e rejeitar a polarização, abrindo uma oportunidade para discursos menos binários em 2026.

Lula, direita, bolsonarismo e a calcificação do eleitorado
Os valores influenciam a percepção das lideranças, ilustrando a confusão do eleitorado: 45% veem Lula como um radical de esquerda. O eleitorado está praticamente calcificado e dividido em dois grandes blocos de 35% cada: um alinhado a Lula (lulismo, maior que a esquerda) e outro alinhado à direita (maior que o bolsonarismo).

A calcificação é o processo, descrito por Nunes e Traumann (Biografia do Abismo), em que o eleitor se agarra ao seu campo político por medo da vitória do “outro lado”, transformando grupos de apoio em “fã-clubes” menos permeáveis à persuasão. Essa dinâmica é alimentada por uma polarização imaginada, onde os eleitores superestimam o peso dos extremos (pensam que há 35% de lulistas e 32% de bolsonaristas, enquanto os números reais são 20% e 13%, respectivamente), o que reforça o clima de “guerra cultural”.

A batalha de 2026: mais mobilizar do que convencer
A eleição de 2026 tende a ser uma disputa pautada pelo desejo de mudança. As simulações da Quaest indicam um quadro competitivo, com Lula operando próximo ao seu piso e com dificuldades para crescer entre os independentes (cerca de 25%). Flávio Bolsonaro replica o movimento, consolidando seu campo e crescendo entre os independentes (18%). No entanto, o centro é enganoso: embora 29% dos eleitores se posicionem no meio, uma grande parte é apática e desinteressada da vida pública.

Diante de um eleitorado calcificado e um centro reduzido e desinteressado, a lógica da campanha se desloca da persuasão (mudar a opinião) para a mobilização (levar o eleitor a votar). Com abstenções crescentes, a margem de decisão se torna estreita, e o que decidirá a eleição é a capacidade de transformar simpatizantes em militantes e eleitores desanimados em participantes ativos.

Desafios e oportunidades para 2026
Fórmulas simples serão insuficientes em 2026. Governos não podem mais confiar apenas em números econômicos positivos, pois o eleitor prioriza a capacidade real de pagar o custo de vida. Da mesma forma, programas sociais não garantem mais votos automaticamente.

Oportunidades surgem no espaço dos valores e da narrativa. Partidos e candidatos que souberem equilibrar o entendimento do país mais conservador com a demanda por moderação da juventude terão vantagem. A disputa será travada sobre um centro pequeno e de baixa energia cívica, e a prioridade das campanhas será mobilizar afetos e contar uma história convincente sobre como decisões políticas produzem ou não uma vida melhor.

A máxima que resume 2026 é a percepção de justiça na vida concreta – e a capacidade de mobilizar afetos em torno dela – que decidirá quem governa o país.

*Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais

Related posts

Angélica Bessa | Confiar e Agir

admin

16 Maio de 2001: quando a Bahia disse não ao autoritarismo

Fulvio Bahia

O que eu não consigo dizer | Pela Terapeuta Angélica Bessa

Fulvio Bahia

Deixe um comentário

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência. Nós assumimos que você concorda com isso, mas você pode desistir caso deseje. Aceitar Leia Mais