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Entre mitos e verdades, o THC pede menos julgamento e mais atenção

Apesar do estigma, o THC pode ser um aliado poderoso na terapêutica, quando usado com acompanhamento e responsabilidade. Nesta entrevista, a farmacêutica Géssica Miranda desmistifica os riscos e mostra como o cuidado certo transforma o tratamento com cannabis em dignidade e qualidade de vida

Por décadas, o THC (tetrahidrocanabinol), principal composto psicoativo da cannabis, foi pintado como o grande vilão de uma história. Mas, nas entrelinhas dessa narrativa, o que se perdeu foi o potencial terapêutico de uma substância que, quando bem conduzida, pode devolver a dignidade, o sono, a calma e até o apetite a quem mais precisa.


Para entender o que é mito e o que é verdade sobre o uso do THC, conversamos com Géssica Miranda, farmacêutica especializada em farmacoterapia canabinoide, que atua com pacientes em tratamento com cannabis medicinal. Com empatia e conhecimento, ela ajuda a traduzir a ciência em cuidado e o cuidado em transformação.

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A farmacêutica Géssica Miranda diz: “THC não é vilão, nem herói. É uma ferramenta potente, que precisa de escuta e acompanhamento”.


Mito ou verdade: todo uso de THC leva à dependência?


“Mito”, responde, sem titubear, a farmacêutica. “O risco de dependência do THC existe, sim, mas é baixo, especialmente quando comparado a substâncias como álcool, tabaco ou opioides”, diz a farmacêutica.


Para ela, o verdadeiro perigo está no uso abusivo, sem orientação, sem titulação de dose e sem escuta ao corpo.


A exposição ao THC, em ambientes terapêuticos e sob acompanhamento clínico, não é sinônimo de dependência, e muito menos de “brisa”. “Há pacientes que o utilizam diariamente, com alívio da dor, melhora do sono e da ansiedade e sem nenhuma alteração mental indesejada”, pontua.

Mito ou verdade: o THC é perigoso e deve ser evitado?


“É um mito parcial”, explica Géssica. “O problema não está na molécula, mas na forma como ela é utilizada”. Assim como a morfina, que é potente e tem potencial de causar dependência, o THC também precisa de uso responsável, mas não deve ser descartado.
Ele tem papel reconhecido no controle da dor, de náuseas, no estímulo do apetite e no relaxamento de pacientes em diversas condições crônicas. “Evitar o THC é fechar os olhos para uma ferramenta potente. E ferramenta, a gente sabe, só funciona bem nas mãos certas”, explica.

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“A segurança não está só no frasco, está no olhar atento, na titulação correta, no respeito ao corpo”, reforça Géssica.


Mito ou verdade: toda prescrição de THC é segura?


Falso. Prescrever THC não é uma fórmula de bolo. Cada organismo reage de uma forma e, por isso, o acompanhamento multiprofissional é essencial. Avaliar histórico de saúde mental, uso de outras substâncias, metabolismo e medicamentos em uso são passos fundamentais antes de iniciar qualquer tratamento.


“Começar devagar, com escuta atenta e ajustes progressivos faz parte do processo. O paciente precisa ser parte ativa do cuidado, entendendo o tempo do corpo e o que cada reação significa”, diz Géssica.


Mito ou verdade: o THC não é para todos os pacientes


Verdade. Há sim contraindicações, como em pacientes com histórico pessoal ou familiar de transtornos psicóticos, alterações cardiovasculares importantes, gestantes, lactantes e adolescentes em desenvolvimento.


A farmacêutica ressalta que esses casos exigem avaliação criteriosa do risco-benefício. “Não é sobre medo, é sobre prudência. O uso inseguro é o que coloca o paciente em risco, e não o composto em si”.


Mito ou verdade: efeitos adversos são sempre sinais de que o tratamento falhou


Mito. Sonolência, alteração de humor leve ou taquicardia podem ser efeitos esperados, e não necessariamente adversos. O segredo está no ajuste fino da dose, no horário da administração e na combinação com outros medicamentos.

Além disso, Géssica reforça que todo farmacêutico deve orientar sobre: 


-A importância da titulação lenta e progressiva, principalmente para iniciantes;
-A relevância do horário de uso e ajuste de dose;
-Evitar o uso “recreativo” ou compartilhado com outras pessoas;
-Entender que mais não é melhor quando se trata de THC.
-Combinações com outros medicamentos que podem potencializar os efeitos do THC;
-A diferença entre um efeito adverso e um efeito esperado, por exemplo, a sonolência pode ser desejada ou não, depende do caso.

“O farmacêutico é o elo entre o produto e o paciente. Quando o paciente compreende os porquês de cada passo do tratamento, ele ganha autonomia, e autonomia é, muitas vezes, o maior remédio”, afirma Géssica.


Mito ou verdade: começar errado é o fim do caminho?


Definitivamente, não. Géssica compartilha que já recebeu pacientes frustrados, que abandonaram o tratamento por conta de experiências ruins causadas pelo uso sem acompanhamento. Mas, com ajustes personalizados, muitos voltaram a experimentar os benefícios reais da cannabis.


“Começar um tratamento com THC é como afinar um instrumento. Não é sobre volume. É sobre harmonia. E para isso, é preciso alguém com ouvido clínico apurado para conduzir essa melodia”, reflete.


Do estigma à ciência, o THC pede escuta e respeito


A cannabis, em especial o THC, não é uma promessa vazia, nem uma panaceia milagrosa. É uma substância que carrega potência, complexidade, e sim, riscos, quando mal administrada. 

Mas, como bem diz Géssica, quando guiado com ética e ciência, o THC oferece mais do que alívio: oferece dignidade. E no fim das contas, não é isso que todo tratamento deveria entregar?

Fonte: Sechat
Foto: Sechat / Reprodução

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