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Especialista explica por que a inflamação muda a resposta à cannabis em casos de ansiedade e sono

Pesquisa científica indica que o estado inflamatório pode modular os efeitos da cannabis em pacientes com ansiedade, com impactos diretos na qualidade do sono

A relação entre cannabis, ansiedade e qualidade do sono acaba de ganhar mais uma camada de complexidade. Um estudo recente publicado na revista científica Frontiers in Behavioral Neuroscience aponta que o estado inflamatório do organismo pode influenciar diretamente a forma como o corpo responde aos canabinoides, com impactos tanto no humor quanto no descanso noturno.

O tema já havia sido abordado recentemente pelo Portal Sechat na reportagem Inflamação pode alterar efeitos da cannabis na ansiedade e no sono aponta estudo científico, que destacou a importância de compreender fatores biológicos individuais na resposta terapêutica.

A pesquisa aprofunda essa discussão ao demonstrar que indivíduos com maior nível de inflamação apresentam respostas diferentes ao uso de cannabis, especialmente em quadros de ansiedade.

Inflamação e sistema endocanabinoide: o que muda no organismo

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De acordo com o médico reumatologista e clínico Dr. Tiago Campanholi, que concedeu entrevista exclusiva ao Portal Sechat, processos inflamatórios podem alterar mecanismos fundamentais do sistema endocanabinoide, responsável por regular funções como humor, sono e resposta ao estresse.

“Em uma situação de inflamação crônica apresentamos alterações em alguns mecanismos principais alterando a resposta tanto aos canabinóides endógenos quanto as medicações exógenas”, explica.

Segundo ele, há mudanças na produção e degradação de substâncias como anandamida e 2-AG, além de alterações na expressão dos receptores CB1 e CB2. Essas variações podem modificar a forma como o organismo responde ao THC e ao CBD.

O especialista também destaca que a neuroinflamação pode impactar diretamente regiões cerebrais ligadas à ansiedade, como a amígdala e o hipocampo, alterando os efeitos ansiolíticos e indutores do sono associados aos canabinoides.

CBD, THC e ansiedade: respostas variam na prática clínica

O estudo indica que produtos ricos em CBD apresentaram respostas mais consistentes em relação à redução da ansiedade. Na prática clínica, esse comportamento também é observado, mas com variações importantes.

“A inflamação crônica está associada a maior sintomatologia ansiosa; se o SEC(sistema endocanabinóide) estiver disfuncional, a resposta ansiolítica ao CBD/THC pode ser atenuada ou imprevisível; doses e proporções (THC/CBD) importam”, afirma Campanholi.

Ele ressalta que o THC pode ter efeitos distintos dependendo da dose: em pequenas quantidades, pode atuar como ansiolítico, enquanto em doses elevadas pode provocar aumento da ansiedade.

Sono, inflamação e cannabis: uma relação sensível

A qualidade do sono também aparece como um dos pontos centrais da pesquisa. Processos inflamatórios estão associados à fragmentação do sono e à redução das fases profundas, especialmente o sono REM.

“Processos inflamatórios fragmentam o sono e reduzem sono profundo (REM); canabinóides que modulam SEC podem melhorar latência do sono, mas o efeito depende do estado inflamatório e da dose”, explica o médico.

Ele acrescenta que o THC pode induzir o sono em baixas doses, mas em doses mais altas pode reduzir a profundidade do descanso.

Por que a resposta à cannabis é diferente em cada pessoa

A variabilidade na resposta à cannabis é um dos pontos mais discutidos na prática clínica. O nível de inflamação é um dos fatores, mas não o único.

“O histórico de exposição e sensibilidade psicológica influencia na resposta da Cannabis medicinal: uso prévio de canabinóides exógenos, vulnerabilidade a psicose/ansiedade, expectativas realistas (efeito placebo/ efeito nocebo)”, detalha Campanholi.

Além disso, condições como depressão, dor crônica e o uso de outras medicações também podem interferir nos resultados terapêuticos.

Avaliação clínica: olhar integral para o paciente

Diante dessa complexidade, a avaliação médica precisa considerar múltiplos fatores. O acompanhamento inclui desde a análise do histórico clínico até exames laboratoriais que identifiquem marcadores inflamatórios.

“Precisamos avaliar o paciente por completo e retirar os fatores de confusão no acompanhamento”, destaca o especialista.

Entre os pontos observados estão padrão de sono, gatilhos de ansiedade, presença de comorbidades e uso de outras substâncias. Exames como PCR, hemograma e avaliação da função hepática também podem ser indicados.

Na escolha do tratamento, a recomendação é iniciar com doses baixas e priorizar formulações com predominância de CBD, especialmente em pacientes com ansiedade.

Caminhos para personalização do tratamento com cannabis

A pesquisa reforça um ponto cada vez mais presente na medicina canábica: a necessidade de individualização do tratamento.

A resposta aos canabinoides não é única e pode ser modulada por fatores biológicos, psicológicos e ambientais, com a inflamação ocupando um papel relevante nesse cenário.

“Precisamos avaliar o paciente por completo e retirar os fatores de confusão no acompanhamento”, finaliza o médico.

Fonte: Sechat
Foto: Reprodução Sechat

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