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Instituto Audiovisual Mulheres de Odun promove a exposição “Antônia Visita Pina”, que transforma visitas em gesto curatorial e memória vivacuracura2

Curadoria compartilhada entre mulheres negras transforma casas, memórias e afetos em experiência expositiva

O Instituto Audiovisual Mulheres de Odun e o Acervo da Lage promovem, a partir do dia 20 de janeiro de 2026, às 18h, a exposição “Antônia Visita Pina”, no Café Pina, espaço de convivência  na sede do iAMO, localizada no Quilombo do Coqueiro Grande, no bairro de Fazenda Grande 4 (Cajazeiras), em Salvador. Com entrada gratuita, a exposição  permanece em cartaz até setembro de 2026 e convida o público a uma experiência sensível e coletiva que articula memória, ancestralidade e práticas curatoriais construídas a partir do encontro entre mulheres negras, suas casas e suas histórias.

Resultado de uma parceria entre o Acervo da Laje e o IAMO, a exposição nasce de um processo pouco convencional no circuito das artes visuais: uma sequência de visitas que se transformou em gesto curatorial compartilhado. O projeto foi construído a partir de deslocamentos entre territórios e gerações, instaurando um vaivém de afetos que deu forma a uma curadoria baseada na escuta, na conversa e na transmissão de memória.

A ideia da exposição começou a ser gestada quando Viviane Ferreira, diretora criativa e de parcerias estratégicas do IAMO, visitou o Acervo da Laje após convite feito por Vilma Santos e Gabriela Leandro. Desse encontro surgiu o desejo de levar as filhas de Pina, avó de Viviane –  para conhecerem a  exposição Memórias para Dona Antônia — homenagem à matriarca Antônia, mãe de Vilma. Durante a  visita das filhas de Pina no vai e vem  de memórias afetivas sobre as matriarcas surge o entendimento de que Pina e Antônia, se em vida estivessem seria boas amigas, dando  origem a ideia de levar as obras da exposição de Dona Antônia  para visitar a sede do Instituto Audiovisual Mulheres de Odun e o Quilombo do Coqueiro Grande. . A partir desse primeiro movimento, as visitas passaram a acontecer em sentido duplo: as filhas de Antonia foram à IAMO, e filhas de Pina atravessaram Salvador para mergulhar no Acervo, iniciando juntas a construção curatorial da exposição.

“Antônia Visita Pina” nasce do entendimento de que visitar e acolher visita é um gesto político. Quando mulheres negras atravessam a cidade para se encontrar, trocar e escutar, elas constroem outra forma de curadoria — uma curadoria que nasce do ato de reconhecerem-se como espelhos e decidirem  compartilhar a  intimidade do lar, da memória e das relações. Essa exposição é sobre presença, continuidade e sobre como nossas mães e avós seguem nos ensinando a existir em celebração e partilha de vida”, diz Viviane Ferreira

A curadoria da exposição foi construída de forma colaborativa, com participação direta das filhas das matriarcas homenageadas, e contou com assistência curatorial de Viviane Ferreira, Gabriela Leandro e Renata da Silva Cardoso, e expografia de Caroline Souza. As obras que integram a mostra foram selecionadas pelas filhas de Pina e Antônia, ao longo do processo, a proposta curatorial foi ampliada para incorporar elementos simbólicos do contexto estético-social das matriarcas, afirmando o território não apenas como espaço físico, mas como memória, presença e legado.

Para Renata da Silva Cardoso, assistente de curadoria, a exposição afirma metodologicamente a legitimidade das experiências de mulheres negras como produção de conhecimento. Ao tomar as relações familiares, a memória doméstica e a vida cotidiana como eixo curatorial, Antônia Visita Pina desloca hierarquias históricas e reafirma esses campos como centrais na escrita da história. A mostra também se destaca por seu modo de fazer curadoria: relacional, processual e compartilhada entre filhas de Antônia e Pina, que constroem juntas o encontro entre as matriarcas, revelando trajetórias de mulheres que sustentaram suas famílias, criaram redes econômicas, sociais e espirituais e deixaram legados transmitidos entre gerações.

As filhas foram convidadas à imaginar a exposição, ativando um movimento de troca, escuta e revisitação de lembranças familiares. Desse processo emergem fotografias, canções, objetos, materialidades e marcas subjetivas que compõem uma presença construída e transmitida entre gerações, revelando a força das matriarcas na sustentação de histórias coletivas.

Ao aproximar as trajetórias de Antônia e Pina, a exposição evidencia como essas mulheres se relacionam por meio do cuidado, da fé, do trabalho e da transmissão de saberes, como o conhecimento sobre as folhas, as rezas, os ofícios e as estratégias de sobrevivência cotidiana. A casa, nesse contexto, deixa de ser apenas espaço privado e se torna lugar de exposição, encontro e produção de conhecimento.

Para Vilma Soares, filha de Dona Antônia, a presença da exposição na sede da IAMO amplia a circulação da memória da mãe e fortalece o sentido de continuidade entre territórios e gerações.

“Ainda estamos em luto, e a memória da minha mãe segue muito viva. Ver Dona Antônia ocupando outro espaço é uma forma de honrar sua história e tudo o que ela representou para nossa família e para a comunidade. Essa exposição é um reencontro, um convite ao cuidado com a memória das nossas mães, avós e ancestrais — mulheres que sustentaram famílias, criaram redes de afeto e resistiram ao racismo, à fome e ao preconceito. Mulheres que, por muito tempo, não foram ouvidas e que agora ganham nome, presença e reconhecimento.”

Já Suely Soares, outra filha de Dona Antônia, destaca o caráter afetivo e coletivo da mostra.

“Essa exposição une famílias e fala das nossas mães com carinho, emoção e respeito. É uma alegria imensa ver essa memória sendo cuidada com tanto amor. Quem visita a exposição conhece um pouco da história de duas mulheres negras fortes e guerreiras, que deixaram legados importantes. Para mim, como filha, é um momento de gratidão e também de saudade, mas uma saudade que se transforma em celebração.”

Para o Instituto Audiovisual Mulheres de Odun, “Antônia Visita Pina” reafirma o compromisso institucional com a valorização de narrativas produzidas por mulheres negras, com a preservação de memórias historicamente silenciadas e com a criação de espaços culturais vivos, onde arte, território e ancestralidade se encontram, convidando o público à autorreflexão e ao reconhecimento das mulheres que sustentam, silenciosamente, a história do país.

SERVIÇO

Exposição Antônia Visita Pina
Abertura: 20 de janeiro de 2026 (terça-feira)
Horário: 18h
Período expositivo: janeiro a setembro de 2026
Local: Café Pina – Sede do Instituto Audiovisual Mulheres de Odun (IAMO)
Endereço: Av. Aliomar Baleeiro, nº 15 – KM 10,5, Fazenda Grande 4 – Salvador/BA
Entrada: Gratuita

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