Ressignificando o audiovisual nacional, a ‘Mostra de Imagem em Movimento – MAPA’ (2025), de João Pacca, representa um dos marcos na cena artística do país, assim como o legado deixado por ‘M3x3’ (1973), de Analivia Cordeiro e ‘The Illustration of Art – Music Piece’ (1975), de Antonio Dias
Segundo o relatório da Roots Analysis, o mercado de arte digital deve chegar a US$ 30 bilhões na próxima década, impulsionado por novos formatos de vídeoarte que combinam áudio, imagem e movimento. A indústria teve que evoluir mais de meio século junto ao audiovisual, sem abrir mão do legado das instalações em vídeo.
No Brasil, a transformação global encontrou terreno fértil. O fenômeno da videoarte, que se consolidou na Europa e na América do Norte entre as décadas de 1960 e 1970, reformulou a cena da arte visual nacional. A chegada da Portapak Sony DV-2400 Video Rover, primeira câmera portátil de vídeo, marcou o surgimento da ‘vídeoarte’ como expressão artística local e consagrou nomes como Anna Bella Geiger, Analivia Cordeiro e Letícia Parente.
Antes das tecnologias de gravação em vídeo digital existirem, vindas da Panasonic e da própria Sony, os artistas ‘old school’ improvisavam com unidades de videocassete helicoidais separadas, que registravam apenas em preto e branco. A ferramenta, considerada de ponta para a época, possibilitou o desenvolvimento gradual das experimentações em vídeo, culminando em uma das primeiras apresentações públicas do gênero: a M3x3, gravada nos estúdios da TV Cultura de São Paulo, reconhecida como marco da história da vídeoarte brasileira.
É nesse cenário de reconhecimento à história e legado da vídeoarte no Brasil, que o artista, coordenador-geral e curador do MAPA, João Pacca, propõe um novo olhar do audiovisual no resgate à memória, tradições e culturas. A Mostra de Imagem em Movimento – MAPA, traz o protagonismo de uma nova geração que reconhece o impacto da vídeoarte para o país e entende o uso da ferramenta para reconstruir lembranças em territórios brasileiros.
“Por meio do pilar da arte contemporânea, podemos suspender barreiras e categorias, criando novos sistemas de representação que atribuem valores dignos a populações perfeitas em sua origem. Nosso dever é proteger e promover a memória das pessoas, e a memória é um fenômeno que não apenas fala sobre marcas do passado, mas também indica como pensamos o presente e observamos o futuro. A memória é como uma coreografia viva que organiza nossas lembranças e também nossos esquecimentos”, explica.
O projeto, que revisita as memórias de passageiros que embarcam diariamente na Estrada de Ferro Carajás (EFC), entre os estados do Pará e Maranhão, trouxe como suporte a vídeoarte para dar vida às memórias diretamente ou indiretamente relacionadas com os trilhos. Para entender culturas, ritos e movimentações sociais nas regiões que vão do terminal marítimo de Ponta da Madeira (MA) à cidade de Parauapebas (PA), o projeto mergulhou na curadoria local, desenvolvendo artistas das proximidades para exposições futuras em Belém (PA), São Luís (MA) e Brasília (DF).
“O MAPA pensa os seres humanos em primeiro lugar. Este projeto está interessado no trem de passageiros da Estrada de Ferro Carajás e buscou artistas que compartilham dessa admiração. As surpresas que encontramos nos encontros do MAPA formam um amálgama de arte que pretende inspirar a todos a uma participação ativa na economia criativa dessa região continental que se estende entre o Maranhão e o Pará por meio da EFC”, revela João Pacca.
A mostra MAPA reuniu novos e criativos talentos para colocar em evidência as histórias e culturas da região. São eles: Acaique; Bárbara Savannah; Dinho Araújo; Ícaro Matos; Inke; Juruna; Leonardo Venturieri; Rafa Cardozo; Ramusyo Brasil e Silvana Mendes.
O projeto retoma o uso do audiovisual como ferramenta de interpretação e projeção de narrativas artísticas, que dialogam com a memória de comunidades e identidades das regiões do Pará e Maranhão, através da Estrada de Ferro Carajás. Prestes à dar mais um passo ao lado de nomes que refletem a vídeoarte no país, Pacca ressalta a importância de descentralizar a categoria para uma estética mais plural e insurgente, criando assim um território vivo de experimentações – assim como remonta a história na década de 60.
“Agora, podemos evidenciar uma inovação no diálogo entre os discursos; jamais excludentes. Em nosso estudo, as cerimônias de transporte de passageiros irrigam diretamente 27 comunidades e ampliam o horizonte cultural que se reconhece neste movimento circular, peculiar a todos os períodos da humanidade: o movimento disruptivo da cultura, que se forma da margem para o centro”, conclui.
O MAPA é realizado pela OPACCA Produção de Imagem, com apoio da Vale, por meio de Recursos para Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), sob regulação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Fonte: Agência Criativus
Foto: Divulgação
