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Narrativa do “ouro digital” estremecida: novo estudo da USP com a PUC-Rio revela fragilidade do Bitcoin em momentos críticos

Pesquisa inédita da USP e PUC-Rio analisa mais de 10 anos de dados on-chain e macro e questiona a narrativa do “ouro digital” como porto seguro.

Um estudo acadêmico realizado por Rafael B. Palazzi (FEA-USP), Gerson de Souza Raimundo Júnior (IAG/PUC-Rio), Marcelo Cabus Klotzle (IAG/PUC-Rio), revelou que a narrativa de ‘ouro digital’ do Bitcoin caiu por terra e que a criptomoeda é apenas mais um produto de investimento que reage ao cenário macroeconômico.

A análise, chamada From Network Fundamentals to Macro-Financial Integration: The Evolving Predictability of Bitcoin Returns, cobre cinco fases do mercado, de 2014 a 2025, usando métodos capazes de captar tanto relações proporcionais (lineares) quanto dependências ocultas que só emergem em momentos extremos (não lineares).

Desse modo, a pesquisa foi o primeiro estudo a combinar, em um mesmo framework estatístico, indicadores nativos do blockchain (on-chain) e variáveis macrofinanceiras como NASDAQ, VIX, dólar e juros americanos para investigar o que realmente prevê os retornos do Bitcoin.

“Na gestão de ativos cripto, lidamos diariamente com a tensão entre o que os dados on-chain mostram e o que o cenário macro impõe. O estudo confirma com rigor estatístico que MVRV e funding rates seguem como os melhores sinais de ciclos de valuation. Mas desde 2019, ignorar juros, dólar e bolsas é um erro. O Bitcoin já está dentro do sistema financeiro global.”, disse Gerson de Souza Raimundo Júnior, pesquisador do IAG/PUC-Rio e membro da equipe de gestão da Hashdex

Bitcoin correlacionado com ações

De acordo com o estudo, até 2018, o Bitcoin apresentava pouca correlação com mercados tradicionais. A partir de 2019, com entrada de institucionais e estímulos da pandemia, NASDAQ, VIX, dólar e juros passaram a prever retornos do Bitcoin com alta significância.

No bear market de 2022–2023, durante a campanha agressiva de alta de juros do Fed, essa conexão atingiu o ápice e o NASDAQ se tornou o preditor macro mais forte de toda a amostra.

“A dependência entre Bitcoin e ativos tradicionais dispara justamente em crises — e de forma que modelos convencionais não captam. A proteção do ‘ouro digital’ enfraquece exatamente quando mais se precisa dela. Isso muda a conversa sobre hedging institucional”, afirma Gerson.

Assim, o estudo aponta que o Bitcoin passou a se comportar como um ativo de risco clássico: caiu com a bolsa, sofreu com o dólar forte e reagiu rapidamente aos juros.

Em outro ‘achado’ do estudo, usando Transfer Entropy, técnica que mede fluxos de informação que modelos tradicionais não captam, a pesquisa mostra que a dependência entre Bitcoin e mercados tradicionais não apenas aumenta em crises, mas muda de natureza: torna-se desproporcional e assimétrica.

Até 2021, essa transmissão não linear era insignificante. No bear market de 2022–2023, ela disparou: VIX, NASDAQ, ouro e juros passaram a transmitir informação não linear para o Bitcoin. Na prática quem modela risco usando correlações de períodos normais subestima o risco de quedas amplificadas entre Bitcoin e Bolsa nos piores momentos”, afirma o estudo

Desse modo, os autores apontam que a narrativa do “ouro digital” tem ressalvas: apesar da analogia de escassez, o comportamento de mercado atual é de ativo de risco, não de porto seguro.

Além disso, para gestores e reguladores, os vínculos crescentes entre cripto e TradFi representam riscos de contaminação sistêmica, especialmente com a expansão dos ETFs.

“A natureza do Bitcoin está em constante transformação. A tese do ouro digital pode se fortalecer conforme o mercado amadurece. O Bitcoin de 2030 pode agir de forma totalmente diferente do Bitcoin de 2022.”, conclui Gerson

Fonte: CoinTelegraph
Image by freepik

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