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Renovação política ainda é mito na Bahia

A renovação política na Bahia permanece um mito persistente, apesar do discurso recorrente em anos eleitorais sobre a necessidade de novos nomes e práticas. Estudo do LabCaos, sobre a composição na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), revela taxas de reeleição elevadas, entre 60% e 63,5%, contrastando com expectativas de alternância de poder.​

Na ALBA, as eleições de 2006 registraram 60,32% de reeleitos (39,68% de renovação); em 2010, 61,9% (38,1%); em 2014, o pico de 63,49% (36,51%); em 2018, novamente 61,9% (38,1%); e em 2022, 60,32% (39,68%). Esses índices demonstram a força do governismo e das bases regionais consolidadas desde 2007, com o PT e aliados no poder estadual favorecendo a cristalização de bancadas de apoio.

A renovação na Bahia frequentemente é ilusória, ocorrendo via clãs políticos: deputados veteranos lançam sucessores familiares (filhos ou cônjuges), mantendo grupos de poder intactos. Reformas eleitorais recentes, como fundo partidário e tempo de TV concentrados em mandatos existentes, agravam isso, dificultando novatos. A capilaridade regional explica perdas raras em áreas como Oeste, Sisaleira e Sudoeste, onde deputados atuam como “embaixadores” de recursos.

Essa perpetuação ecoa críticas à reforma política, que defende cláusulas de barreira e fim de coligações para romper ciclos de reeleição excessiva no Brasil.​​ Essa dinâmica reflete uma democratização oligárquica, onde a competição é limitada por estruturas de poder preexistentes, inibindo verdadeira renovação.​​

Os partidos com maiores taxas de reeleição são: PT (ex.: 10 deputados em 2018, 9 em 2022, ancorados em vitórias como a de Jaques Wagner em 2006); PSD (liderado por Otto Alencar, forte no interior com Ivana Bastos e Adolfo Menezes); União Brasil (herança carlista, bases em centros oposicionistas); e PP (alianças com prefeitos). Esses blocos ilustram, a influência executiva na legislativa, especialmente com reeleição presidencial afetando disputas proporcionais.

Renovação x reforma política
Salvador e Região Metropolitana (RMS) lideram a renovação, impulsionada por grande eleitorado, exposição midiática, pautas ideológicas (direita, esquerda, ativismo), segmentos religiosos e voto de protesto urbano via redes sociais. Polos como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Juazeiro e eixo Itabuna-Ilhéus atuam como zonas híbridas, permitindo entradas como Binho Galinha (Feira) e Pancadinha (Itabuna) em 2022. No Oeste e Sudoeste, economias agropastoris e dependência municipal de “embaixadores” em Salvador criam barreiras intransponíveis para outsiders.​

Toda sociedade é governada por uma “classe política” minoritária organizada, distinguindo governantes de governados; na ALBA, clãs regionais atuam como essa classe, resistindo à massa eleitoral. Organizações democráticas evoluem para dominação burocrática-elitista, pois eficiência exige hierarquia, inexoravelmente corrompendo líderes iniciais.

Max Weber, em “Economia e Sociedade”, descreve a “jaula de ferro” da racionalização burocrática como prisão inescapável onde eficiência impessoal cristaliza dominação legal-racional em quadros profissionais, rotinizando carisma inicial e perpetuando administradores como deputados baianos em regiões capilarizadas (Oeste, Sudoeste), que monopolizam alocação de recursos via expertise técnica contra inovação política. Joseph Schumpeter, em “Capitalismo, Socialismo e Democracia”, reformula democracia como método competitivo oligopólico de elites por votos – não soberania popular –, onde eleitores irracionais consomem pacotes prontos; na Bahia, isso se manifesta na renovação confinada a outsiders urbanos do RMS (protesto digital), enquanto interior oligárquico (clãs PSD-PP) resiste à “destruição criativa” eleitoral. Alexis de Tocqueville, em “A Democracia na América”, adverte que reeleição ilimitada alimenta ambição pessoal e centralização administrativa, erodindo associações locais e alternância essencial à liberdade, propondo limites mandatos para conter “tirania da maioria” e preservar virtudes cívicas contra uniformidade igualitária.

Esses clássicos iluminam o caso baiano: baixa renovação não é anomalia, mas lei estrutural das elites organizadas, demandando reformas para forçar circulação genuína. Sem uma verdadeira e profunda reforma política, a renovação política será apenas um mito, um argumento para as narrativas do marketing político.

Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais.

Foto: Divulgação

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