CriançaSaúde

Agosto Dourado: “Amamentar envolve aprendizado e não deve virar obrigação moral”, alerta mastologista

Em 2025, o Brasil registrou 57% de cobertura da amamentação exclusiva entre bebês de zero a seis meses acompanhados pela Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde (SUS). Falar sobre os benefícios do aleitamento materno é fundamental, mas também é necessário discutir aspectos frequentemente omitidos, como dor, fissuras nos mamilos, ingurgitamento, dificuldade de pega e insegurança em relação à produção de leite, experiências comuns nesse período.

Segundo estudo publicado em 2022 no American Journal of Human Biology, apenas 6,5% das mães entrevistadas não relataram complicações ao amamentar.

A médica mastologista Larissa Bitencourt alerta que esses sinais não podem ser ignorados:
“Quando esses problemas não são reconhecidos e tratados, podem contribuir para a interrupção da amamentação antes do tempo desejado. A ideia de que, por ser natural, a amamentação deveria acontecer de forma automática e sem dor cria uma expectativa pouco realista. Amamentar envolve aprendizado tanto para a mulher quanto para o bebê, exigindo tempo, prática e apoio profissional”, explica.

Quando surgem dificuldades, a mãe pode interpretar a situação como uma incapacidade pessoal, o que retarda a busca por ajuda. Nesse contexto, é essencial reconhecer que algumas intercorrências são frequentes, mas não devem ser naturalizadas. Fissuras no início do processo podem ocorrer, mas dor intensa, rachaduras ou sangramentos indicam que algo precisa de ajuste, geralmente relacionado à pega ou ao posicionamento inadequado do bebê.
Para a dentista Jhessilly Alvim, mãe de Martin, de 2 anos, a fase inicial trouxe muitos desafios: “Nas primeiras semanas, tive muitas fissuras e sofri bastante. Chorava toda vez que ele pedia para mamar, porque sabia que o choro viria acompanhado de dor. Tive auxílio profissional, fiz laserterapia, recebi orientações para cicatrizar as feridas e, principalmente, fui encorajada a continuar. Eu tinha muito leite e, com o passar das semanas, meu corpo se adaptou. As feridas cicatrizaram e aquilo que antes era sinônimo de dor transformou-se em prazer”, relata.

Sobre as situações mais comuns, a médica destaca o ingurgitamento e a mastite, e orienta como proceder diante de cada uma. “Quando há acúmulo de leite, conhecido como ingurgitamento, as mamas ficam muito cheias, endurecidas, quentes e doloridas, algo mais frequente entre o terceiro e o quinto dia pós-parto. Nesse caso, amamentar em livre demanda e aplicar compressas frias ajuda a aliviar o quadro, mas bombear o leite em excesso não é recomendado”, explica. Outro cenário frequente é a mastite, uma inflamação que costuma afetar uma das mamas. “Pode causar dor, vermelhidão, calor, endurecimento, febre, calafrios e mal-estar geral. Quadros que não melhoram, retornam repetidamente ou permanecem localizados na mesma região devem ser investigados por um médico”, alerta a especialista.

Saúde mental e cobrança social

Além do desconforto físico, existe uma forte pressão social para que a mulher amamente “a qualquer custo”. Essa cobrança costuma vir da família, das redes sociais e até de profissionais de saúde. Segundo a mastologista, é preciso substituir esse discurso por uma abordagem centrada no bem-estar da mãe e do bebê:

“O problema não está em incentivar o aleitamento, mas em transformá-lo em uma obrigação moral. A orientação deve combinar informação, apoio prático e respeito às condições de cada mulher. O objetivo é favorecer a amamentação quando possível, sem que a saúde mental materna seja o preço a pagar. Isso significa apresentar os benefícios sem romantizar o processo”, afirma Larissa Bitencourt.

Mãe de duas meninas, a analista de transportes Cíntia Kelly viveu duas experiências distintas. A primogênita Gabrielly, hoje com 10 anos, foi amamentada até os 5 anos, apesar de Cíntia ter enfrentado uma depressão pós-parto na época. Já Isabelly, a caçula de 8 meses, passou a tomar fórmula aos 3 meses.

“No começo, foi difícil aceitar, principalmente porque eu comparava a situação com a experiência que tive com a Gabrielly. Mas entendi que cada filho é único e cada maternidade também. Aprendi que ser uma boa mãe não é medido pelo tempo em que amamentamos. A maternidade também é feita de adaptações, renúncias e amor”, afirma.

Um estudo publicado em 2024 na revista Maternal & Child Nutrition mostrou que a pressão excessiva para amamentar pode alimentar sentimentos de culpa, vergonha, ansiedade e depressão. Por outro lado, uma revisão publicada pela organização Cochrane em 2025 reforça que o apoio prático e emocional reduz a culpa e encoraja a busca por orientação.

Para as mães que vivenciam um aleitamento diferente do idealizado, a médica conclui: “Amamentar não deve ser uma medida do valor materno. Nem toda amamentação acontece como planejado, e recorrer à fórmula, seja de forma exclusiva ou complementar, não diminui o cuidado ou o vínculo. Leite materno, fórmula ou alimentação mista fazem parte da assistência. Ajustar o plano não é desistir, mas responder com responsabilidade às necessidades da mãe e do bebê”.

Fonte: Lú Amâncio – Assessoria de Imprensa
Foto: Divulgação

Related posts

Prefeitura de Salvador e GACC entregam novo centro de diagnóstico em São Marcos

Fulvio Bahia

Salvador sedia Congresso Brasileiro de Ortopedia e coloca a Bahia em destaque nacional, com cirurgias transmitidas ao vivo

Fulvio Bahia

Projeto de Ireuda Silva amplia divulgação de programa para reconstrução dentária de mulheres vítimas de violência

Fulvio Bahia

Deixe um comentário

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência. Nós assumimos que você concorda com isso, mas você pode desistir caso deseje. Aceitar Leia Mais