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Diabetes: O que diz a ciência sobre os canabinoides

Estudos mostram potencial do CBD e THCV no metabolismo, mas evidências ainda são limitadas. Acesse o artigo e entenda o impacto real da cannabis no diabetes!

O diabetes é uma doença metabólica crônica caracterizada pela elevação da glicose no sangue. A condição ocorre quando o organismo não produz insulina suficiente ou não consegue utilizar adequadamente o hormônio produzido pelo pâncreas. A insulina participa da regulação da glicose e permite que o açúcar presente na corrente sanguínea seja utilizado pelas células como fonte de energia. Quando não controlada, a hiperglicemia pode provocar danos ao coração, vasos sanguíneos, olhos, rins e nervos.

Entre as principais formas da doença estão o diabetes tipo 1, o tipo 2 e o diabetes gestacional. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tipo 2 representa mais de 95% dos casos e está associado, entre outros fatores, à genética, ao envelhecimento e a fatores relacionados ao estilo de vida.

Nesse contexto, compostos presentes na cannabis vêm sendo investigados por possíveis efeitos sobre processos relacionados ao metabolismo da glicose, à inflamação e ao sistema endocanabinoide. Os resultados, entretanto, ainda não permitem considerar a cannabis ou seus principais canabinoides como tratamento estabelecido para o diabetes.

CBD foi estudado em modelo experimental de diabetes tipo 1

Um dos trabalhos mais citados nessa área foi publicado em 2006 na revista científica Autoimmunity. A pesquisa envolveu Raphael Mechoulam e outros pesquisadores e avaliou o efeito do canabidiol (CBD) em camundongos NOD (non-obese diabetic), um modelo experimental utilizado para estudar o diabetes autoimune semelhante ao tipo 1.

No estudo, a incidência de diabetes foi de 86% entre os animais que não receberam CBD, enquanto caiu para 30% entre os camundongos tratados com o canabinoide. Os pesquisadores também observaram redução de marcadores inflamatórios, incluindo IFN-γ e TNF-α, além de menor inflamação das ilhotas pancreáticas.

Os resultados sugeriram que o CBD poderia interferir em mecanismos imunológicos envolvidos na destruição das células pancreáticas produtoras de insulina. A pesquisa, no entanto, foi realizada em animais e não demonstrou que o CBD previne ou trata diabetes em seres humanos.

Um segundo trabalho do mesmo grupo, publicado posteriormente, também utilizou camundongos NOD e encontrou menor desenvolvimento de diabetes entre os animais tratados com CBD. Nesse experimento, 32% dos camundongos tratados desenvolveram diabetes, contra 86% no grupo que recebeu o veículo e 100% entre os animais não tratados.

Os próprios resultados indicaram que o efeito estava relacionado principalmente à modulação da resposta imunológica e à preservação das ilhotas pancreáticas. O estudo não encontrou um efeito direto do CBD sobre os níveis de glicose em um teste de sobrecarga de glicose.

THCV já foi avaliado em pessoas com diabetes tipo 2

Outro canabinoide que despertou interesse na área metabólica é o tetra-hidrocanabivarina (THCV).

Diferentemente de evidências exclusivamente pré-clínicas, o THCV já foi testado em um pequeno estudo clínico envolvendo seres humanos. Publicada em 2016 na revista Diabetes Care, a pesquisa foi randomizada, duplo-cega e controlada por placebo e incluiu 62 pessoas com diabetes tipo 2 que não utilizavam insulina.

Os participantes receberam CBD, THCV, combinações dos dois compostos ou placebo durante 13 semanas. Entre os resultados, o grupo que recebeu THCV apresentou redução significativa da glicemia plasmática de jejum e melhora em um indicador relacionado à função das células beta pancreáticas quando comparado ao placebo.

Apesar dos resultados, o estudo foi classificado como um estudo piloto, com amostra relativamente pequena e duração limitada. Portanto, os achados são importantes para a pesquisa, mas não são suficientes para estabelecer o THCV como tratamento para o diabetes tipo 2.

Sistema endocanabinoide é investigado no metabolismo

A relação entre cannabis, sistema endocanabinoide e metabolismo também foi discutida em uma revisão publicada em 2019 pela Revista Mexicana de Medicina Forense y Ciencias de la Salud.

O trabalho analisou a participação do sistema endocanabinoide em processos relacionados ao metabolismo energético e destacou que a atividade desse sistema pode estar associada a mecanismos envolvidos na ingestão alimentar, armazenamento de energia e alterações metabólicas, incluindo obesidade e diabetes tipo 2.

A revisão também discutiu o receptor CB1 e o rimonabanto, um medicamento que bloqueava esse receptor e apresentou efeitos metabólicos. O trabalho, porém, não demonstra que CBD ou outros produtos de cannabis sejam tratamentos para diabetes.

Essa distinção é importante porque pesquisas sobre o sistema endocanabinoide não significam necessariamente que a administração de cannabis ou de um determinado canabinoide produzirá o mesmo efeito em pacientes.

O que as pesquisas permitem afirmar sobre o diabetes?

As evidências disponíveis indicam que CBD e THCV apresentam mecanismos biológicos que justificam novas investigações na área metabólica, mas ainda existem diferenças importantes entre resultados obtidos em modelos animais, estudos laboratoriais e ensaios clínicos.

No caso do CBD, os resultados mais expressivos relacionados à incidência de diabetes foram observados em modelos animais de diabetes autoimune. Já o THCV possui pelo menos um estudo clínico piloto em pessoas com diabetes tipo 2 que identificou alterações favoráveis em alguns parâmetros metabólicos.

Isso, entretanto, não significa que esses compostos possam substituir insulina, metformina ou outros medicamentos utilizados no tratamento do diabetes. A própria OMS destaca que o controle da doença depende do tipo de diabetes e pode envolver alimentação adequada, atividade física, monitoramento da glicemia e medicamentos, incluindo insulina para pessoas com diabetes tipo 1.

Assim, a cannabis e seus canabinoides permanecem como objetos de investigação científica na área metabólica, e não como terapias comprovadas para controle ou tratamento do diabetes.

Referências científicas sobre Diabetes 

  • Weiss L, Zeira M, Reich S, et al. Cannabidiol lowers incidence of diabetes in non-obese diabetic miceAutoimmunity, 2006.
  • Weiss L, Zeira M, Reich S, et al. Cannabidiol arrests onset of autoimmune diabetes in NOD miceNeuropharmacology, 2008.
  • Jadoon KA, Ratcliffe SH, Barrett DA, et al. Efficacy and Safety of Cannabidiol and Tetrahydrocannabivarin on Glycemic and Lipid Parameters in Patients With Type 2 DiabetesDiabetes Care, 2016.
  • Vargas Zuñiga LM, Luna Gómez JM, Adams Ocampo JC, et al. Cannabis y DiabetesRevista Mexicana de Medicina Forense y Ciencias de la Salud, 2019.
  • Organização Mundial da Saúde. Diabetes. Atualização de 2026.
  • Diabetes 

Fonte: Sechat
Foto: Pexels / Artem Podrez

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