Câmara Municipal de SalvadorCulturaFeira

Feiras livres mantêm a alma e a culinária da cidade

Espaços são patrimônios vivos de Salvador e vão muito além de simples mercados públicos

As feiras livres de Salvador, com seus labirintos de barracas, vielas e cheiros marcantes, seguem como o coração pulsante da capital baiana. Mais do que simples locais de comércio, esses espaços foram reconhecidos como patrimônios culturais imateriais, funcionando como verdadeiros museus vivos, onde ingredientes locais, temperos típicos e receitas ancestrais são preservados.

As lentes do fotógrafo Antonio Queirós e a matéria da jornalista Fernanda Chagas percorreram três dos mais emblemáticos mercados da cidade – a Feira de São Joaquim, a Feira das Sete Portas e a Feira do Japão –, registrando não apenas a fartura de produtos, mas também a força dos laços comunitários, a troca de conversas e o tradicional “chorinho” (desconto), que estreita a relação entre comerciante e consumidor.

Feira de São Joaquim: a gigante da Baía de Todos-os-Santos

Considerada a maior feira livre da Bahia, a Feira de São Joaquim tem raízes que remontam ao século XIX, impulsionada por pescadores. No entanto, sua configuração atual nasceu de um momento trágico: em 1964, um incêndio de grandes proporções destruiu a antiga Feira de Água de Meninos. Remanejados, os feirantes ocuparam a enseada vizinha e batizaram o novo espaço.

A história do local, contudo, passa ainda por outras origens, como a antiga Feira do Sete, da década de 1930, localizada no Comércio, que precisou mudar de endereço devido às obras de modernização do Porto de Salvador e ao crescimento urbano.

Hoje, São Joaquim é o destino definitivo para quem busca os ingredientes do tradicional caruru de Cosme e Damião, celebrado em setembro – período em que costuma ser preparado um caruru gigante, com mais de 15 mil quiabos, distribuído à comunidade.

Mas quem mais comemora são os comerciantes, a exemplo de Manuel Otávio de Araújo Neres, de 65 anos, que trabalha na feira desde os 16:

“Eu cheguei aqui em 1976 para ajudar um primo. Fiz Escola de Engenharia e curso no Senai, mas optei por ficar, montei meu próprio comércio e estou até hoje. Esse é um dos melhores meses para mim, trabalho de domingo a domingo e não tenho do que reclamar”, conta o dono de um box especializado em camarão seco, dendê e coco ralado.

A clientela é fiel há décadas. Jesuíta Maria, de 57 anos, destaca que compra tudo o que precisa na mão de Manuel pela qualidade e pelo atendimento duradouro. “Agora é só comprar o que falta e reunir os sete meninos”, frisa.

Feira das Sete Portas: tradição e afeto no centro da cidade

Inaugurada em junho de 1930 – com forte expansão estrutural nas décadas seguintes –, a Feira das Sete Portas surgiu para oferecer uma praça de compras com preços populares em uma Salvador em expansão. O curioso nome faz referência à antiga configuração de acesso àquela zona da cidade, marcada por vias de escoamento e portões que controlavam a entrada de mercadorias.

Para quem vive do comércio local, o espaço representa muito mais do que renda; é um ecossistema de sobrevivência e afeto. Augusto Cerqueira da Costa, de 73 anos, dedica sua vida à feira há 45 anos. Vendedor de feijões variados, carnes secas, calabresa e pertences suínos, ele explica que a permanência no local virou uma questão de laços profundos:

“Eu tinha um comércio fora daqui, mas meu pai trazia mercadoria para os feirantes e acabou adquirindo um box. Eu vim trabalhar e até hoje não saí, me apeguei a esse lugar. Não sei se por amor, já que amor é uma coisa muito ampla, mas com certeza por uma ligação forte que não me deixa tomar essa decisão”, descreve.

Entre os frequentadores, o clima de proximidade é evidente. Almira Pinho Reis, de 67 anos, diz que vai à feira quase todos os dias: “Moro perto, conheço todo mundo, gosto de andar. Mesmo sem intenção de comprar nada, encontro meus amigos, acho algo mais barato e fresquinho. No mercado não posso pedir desconto, mas aqui sempre dou uma chorada”, diverte-se.

Embora seja conhecida também pela venda de ingredientes para o caruru de Cosme e Damião, a feira é igualmente famosa pelas tradicionais barracas que servem uma robusta feijoada logo nas primeiras horas da manhã.

Feira do Japão: identidade e história no miolo da Liberdade

Localizada no tradicional bairro da Liberdade – o bairro com a maior população autodeclarada negra fora da África –, a Feira do Japão tem uma origem curiosa. Ao contrário do que muitos pensam, o nome não decorre de uma comunidade expressiva de imigrantes fundadores do bairro.

A história remonta a 1957, quando um grupo de imigrantes e descendentes de japoneses passou a residir ou atuar na área, instalando pontos comerciais voltados à agricultura e ao cultivo de hortaliças. O jeito peculiar de trabalhar a terra chamou tanto a atenção dos moradores que a via e o entorno rapidamente ganharam o nome atual, integrando-se de forma definitiva à identidade do miolo da Liberdade.

Economia, segurança alimentar e o sabor do caruru

As feiras de Salvador vão muito além de simples mercados públicos. Elas desempenham papéis fundamentais na economia, na cultura e na segurança alimentar, sustentando milhares de famílias – desde pequenos produtores do Recôncavo, da Chapada Diamantina e da Região Metropolitana até atravessadores, carregadores (historicamente chamados de chapas) e feirantes.

Em setembro, com a chegada do tradicional caruru de Cosme e Damião, essa dinâmica atinge o ápice. As casas se enchem de crianças e adultos ansiosos para saborear o prato típico, enquanto as feiras ficam movimentadas, cheias de cor, afeto e resistência cultural.

Fonte: Ascom CMS
Foto: Antônio Queirós

Related posts

Festival de Música da Rádio Educadora FM incentiva talentos baianos com premiação de R$ 200 mil

Fulvio Bahia

Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar) anuncia IV Edição e está com inscrições abertas

Fulvio Bahia

Filme O Agente Secreto será o representante brasileiro no Oscar 2026

Fulvio Bahia

Deixe um comentário

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência. Nós assumimos que você concorda com isso, mas você pode desistir caso deseje. Aceitar Leia Mais