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Ludopatia: sintomas, tratamentos e o papel da Cannabis

Entenda o que é ludopatia, seus sinais, fatores de risco e tratamentos e saiba o que as evidências dizem sobre Cannabis medicinal.

A expansão das apostas online no Brasil colocou a ludopatia no centro das discussões sobre os impactos das bets na saúde pública.

Em 25 de setembro de 2026, o governo federal anunciou uma medida provisória que proibiu uma série de atividades relacionadas a apostas e jogos online no Brasil.

Entre as justificativas para a medida estão os impactos das apostas sobre o orçamento das famílias e a saúde mental da população. Ao anunciar a decisão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou casos de endividamento e danos associados ao vício em jogos, incluindo a ludopatia.

Dados do SUS ajudam a dimensionar o impacto da ludopatia

As apostas de quota fixa, também conhecidas como “bets”, foram autorizadas no Brasil em 2018. De acordo com o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, foram registrados mais de 10 mil atendimentos relacionados à ludopatia entre janeiro de 2018 e maio de 2025, um aumento de 104% no período analisado.

O Ministério da Saúde considera os problemas relacionados aos jogos de apostas uma questão de saúde pública, com possíveis impactos na saúde mental, nas relações familiares e na condição financeira das pessoas.

Para entender melhor esse tema e as possibilidades de tratamento, conversamos com o Dr. Theonaldo Alexandrino Caldeira, psiquiatra com experiência em transtornos de saúde mental. Também entrevistamos as psicólogas Silvania Mendes, que atua com terapia cognitivo-comportamental (TCC), e Valéria Santos.

O que acontece no cérebro de quem desenvolve compulsão por jogos

De acordo com o Dr. Theonaldo, o vício em jogos afeta áreas-chave do cérebro, como o córtex pré-frontal e a ínsula, relacionadas à tomada de decisões, à regulação das emoções e ao controle dos impulsos.

“Durante o jogo, ocorre uma liberação intensa de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. O problema é que o cérebro cria uma associação muito forte entre essa sensação de recompensa e o ato de jogar, levando à compulsão”, explica.

Dr. Theonaldo Alexandrino Caldeira - Psiquiatria CRM: 44646/MG | RQE: 44677
Dr. Theonaldo Alexandrino Caldeira – Psiquiatria CRM: 44646/MG | RQE: 44677

Os primeiros sinais de alerta, segundo o especialista, incluem mudanças de comportamento.

“A pessoa começa a mentir, a sentir um desejo incontrolável de jogar, perde o interesse por atividades que antes gostava e continua jogando mesmo após grandes perdas financeiras”, detalha.

Ainda de acordo com o psiquiatra, é comum surgirem sentimentos de frustração e irritabilidade, além de uma crescente necessidade de jogar. Isso pode levar a riscos financeiros significativos e a grandes perdas. O jogo também pode ser usado como uma forma de escapar do estresse e dos problemas do cotidiano.

Ansiedade, depressão e TDAH podem aumentar a vulnerabilidade

Essa forma de fuga, mencionada pelo Dr. Theonaldo, também é abordada pela psicóloga e pesquisadora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Valéria Santos.

Ela explica que o vício em jogos compartilha mecanismos relacionados ao funcionamento do cérebro, aos pensamentos e ao comportamento, envolvendo dificuldade para regular as emoções, controlar os impulsos e a busca por recompensa imediata. O problema também pode estar associado a outras questões psicológicas.

“Pessoas com transtorno de ansiedade, por exemplo, podem recorrer às apostas como uma forma de aliviar o estresse. Já aqueles com depressão encontram no jogo uma elevação emocional momentânea, que, com o tempo, agrava o quadro depressivo, criando um ciclo vicioso”, esclarece.

Além disso, Valéria destaca que pessoas com o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) podem ser vulneráveis ao vício em apostas.

“Pessoas com TDAH tendem a ser mais impulsivas e buscam estímulos com mais frequência, o que pode torná-las mais propensas a desenvolver problemas relacionados a jogos de azar.”

A psicóloga Silvania Mendes explica que, além da depressão e da ansiedade, existem fatores de risco específicos associados ao desenvolvimento de problemas com jogos.

“O fácil acesso aos jogos, a glamourização que existe em volta dessa prática por influenciadores digitais e a predisposição genética aumentam o risco”, destaca Silvania.

Como é o tratamento da ludopatia

O Dr. Theonaldo explica que o tratamento da ludopatia envolve uma abordagem abrangente, que pode incluir terapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio e, em alguns casos, medicamentos.

“O tratamento inclui terapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio e medicações convencionais, como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs).

Hoje, também podemos contar com a Cannabis. Os canabinoides se tornaram uma alternativa importante às medicações convencionais, com efeitos terapêuticos significativos e baixa ocorrência de efeitos colaterais. O CBD atua como ansiolítico e alivia sintomas como ansiedade, irritabilidade e depressão.”

Por que a terapia cognitivo-comportamental é importante

As psicólogas Silvania e Valéria reforçam que, nesse contexto, a terapia é fundamental.

“Temos uma técnica na qual ensinamos o paciente a desafiar pensamentos distorcidos relacionados ao jogo e a desenvolver habilidades de enfrentamento, além de trabalhar formas mais funcionais para gerenciar o estresse e a ansiedade, o que vai promover mudanças no comportamento compulsivo e também na prevenção de recaídas, que é uma etapa muito importante no processo”, explica Silvania.

Valéria também destaca o papel da terapia cognitivo-comportamental no tratamento da ludopatia.

“A TCC é eficaz porque atua diretamente nos processos cognitivos e comportamentais que sustentam o vício. Ela trabalha com a reestruturação de pensamentos e controle de impulsos, ajudando o paciente a recuperar o controle sobre suas ações e a construir uma vida mais equilibrada.”

Cannabis medicinal e ludopatia: o que dizem as evidências?

Embora alguns compostos da Cannabis sejam estudados para o tratamento de condições de saúde mental, atualmente não há evidências científicas suficientes para afirmar que medicamentos à base de Cannabis sejam eficazes no tratamento da ludopatia.

Compostos da planta, especialmente o canabidiol (CBD), vêm sendo investigados para o tratamento de transtornos por uso de substâncias, incluindo aqueles relacionados à Cannabis, a opioides, ao álcool, ao tabaco e a outras substâncias.

Esses estudos, no entanto, dizem respeito principalmente a transtornos provocados pelo consumo de substâncias. Ainda são necessários estudos clínicos especificamente com pacientes com ludopatia.

Com o conhecimento disponível atualmente, o uso de produtos à base de Cannabis tem potencial para aliviar sintomas associados à ludopatia, como a ansiedade e a impulsividade.

Cannabis não substitui tratamentos recomendados

Portanto, qualquer uso de canabinoides não substitui as abordagens terapêuticas recomendadas para pessoas com problemas relacionados aos jogos de apostas. Esse uso deve ser avaliado individualmente por um profissional da saúde com experiência na prescrição de derivados da Cannabis.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica. Aqueles que desejam incluir esse tipo de produto na rotina devem buscar orientação profissional.

Fonte: Cannabis & Saúde
Foto: Gemini AI

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