A escrita em diários se mostrou uma ferramenta terapêutica ocupacional eficaz para o suporte emocional de mães de recém-nascidos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatais. A estratégia, de baixo custo e fácil implementação, foi considerada útil para elaborar sentimentos, registrar memórias significativas e ajudar a reorganizar o cotidiano materno. As conclusões foram publicadas na revista Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, em 12 de junho.
O estudo foi conduzido no Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte (MG), entre janeiro e agosto de 2022. A instituição é especializada em assistência materno infantil e atende exclusivamente usuários do SUS (Sistema Único de Saúde). Participaram 11 mães de recém-nascidos internados na UTI neonatal, com idade média de 29 anos e, em sua maioria, com ensino médio completo (8). Não foram consideradas elegíveis as mães com abuso de álcool e drogas ilícitas, distúrbios psíquicos, comprometimento cognitivo e instabilidade emocional informados no prontuário.

As pesquisadoras forneceram às mães cadernos pautados, com três canetas de cores diferentes, e as estimularam a personalizá-los, com colagens, desenhos e pinturas. Os cadernos vieram acompanhados da orientação: “Este caderno é para você registrar seus pensamentos, ideias, acontecimentos e o que mais desejar relacionado à sua experiência de ter um bebê internado na UTI neonatal”. Após um período de utilização, e antes da alta do recém-nascido, as pesquisadoras conduziram uma entrevista semiestruturada com as mães, explorando o teor e o impacto dos registros. Os diários foram então digitalizados para análise e devolvidos às participantes.
Em sua análise, as pesquisadoras verificaram o uso do diário como forma de desabafo, alívio emocional e organização dos pensamentos. “Muitas mães relataram a sensação de conforto, como se estivessem conversando com alguém. Em vários relatos, o diário foi descrito como um confidente, um espaço seguro para expressar sentimentos difíceis de compartilhar com familiares ou profissionais”, destaca a pesquisadora Érika da Silva Dittz.
As anotações também serviram para registrar a história de vida do bebê e da família, preservando memórias para o futuro, além de revelarem mudanças profundas na rotina das mães, do pré-natal à internação.
“A escrita em diário não exige tecnologia sofisticada nem grandes investimentos institucionais. Um simples caderno pode se transformar em instrumento de cuidado, memória, acolhimento e elaboração emocional”, ressalta a pesquisadora . “Além disso, em um contexto de internação neonatal, frequentemente marcado por medo, insegurança e ruptura de expectativas, oferecer à mãe um espaço para narrar sua própria história é também reconhecer seu protagonismo no cuidado e na construção da experiência da maternidade”, conclui Dittz.
