O estudo utilizou telemetria não invasiva em cães Beagle para monitorar os efeitos do CBD e do THC sobre coração, respiração e temperatura corporal.
Desde outubro de 2024, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a prescrição de medicamentos à base de Cannabis por médicos veterinários, o uso de canabinoides na saúde animal tem crescido.
Compostos extraídos da planta vêm sendo estudados para ajudar no tratamento de condições como osteoartrite, epilepsia e dermatite atópica em cães. Mas uma dúvida continua presente entre tutores e veterinários: afinal, a Cannabis é segura para cachorros?
Um estudo realizado por pesquisadores da Tailândia traz informações importantes sobre esse tema. A pesquisa avaliou os efeitos de óleos contendo canabidiol (CBD), tetrahidrocanabinol (THC) e uma combinação dos dois compostos em cães saudáveis. Os cientistas analisaram possíveis efeitos sobre o coração, a respiração, a temperatura corporal e outros indicadores fisiológicos.
Os resultados mostram que existe uma diferença significativa entre os dois principais canabinoides da planta. O CBD foi bem tolerado e o THC foi associado a efeitos adversos a partir de 2 mg/kg.
Como o estudo foi realizado
Para avaliar a segurança dos canabinoides, os pesquisadores utilizaram seis cães da raça Beagle saudáveis.
Durante todo o estudo, os cães utilizaram coletes de telemetria equipados com eletrodos cardíacos e sensores respiratórios.
O sistema permitiu registrar em tempo real a atividade do coração e da respiração enquanto os animais permaneciam acordados e em repouso, sem necessidade de anestesia.
Antes do início do estudo, os cães passaram por um período de adaptação ao equipamento para reduzir o estresse e garantir medições mais confiáveis.
Os pesquisadores acompanharam parâmetros como temperatura corporal, frequência cardíaca, eletrocardiograma, pressão arterial, respiração e concentrações sanguíneas dos canabinoides.

Os animais receberam três formulações diferentes contendo os principais canabinoides da Cannabis:
- • THC isolado;
- • CBD isolado;
- • Uma combinação de THC e CBD.
Os produtos foram administrados por via oral em um protocolo com doses aumentadas gradualmente. Ao longo do estudo, os cães receberam doses crescentes de:
- • 1 mg/kg;
- • 2 mg/kg;
- • 4 mg/kg;
- • 8 mg/kg;
- • 16 mg/kg.
Essa estratégia ajudou os pesquisadores a identificar em que momento os efeitos fisiológicos começavam a surgir.
As formulações utilizadas continham 81 mg/mL de THC, 100 mg/mL de CBD ou uma combinação com 27 mg/mL de THC e 25 mg/mL de CBD.
CBD foi bem tolerado pelos cães
O principal achado do estudo foi que o óleo rico em CBD foi bem tolerado pelos cães.
Mesmo nas doses mais altas avaliadas pelos pesquisadores, o canabidiol não provocou alterações importantes na:
- • Frequência cardíaca;
- • Pressão arterial;
- • Respiração;
- • Temperatura corporal.
Os pesquisadores também observaram sinais de que o CBD pode favorecer a atividade do sistema nervoso parassimpático, responsável pelos processos de relaxamento e recuperação do organismo.
THC causou reações em doses baixas
O cenário foi diferente para os produtos ricos em THC isolado.
Os pesquisadores observaram efeitos adversos já a partir da dose de 2 mg/kg, especialmente nos grupos que receberam THC isolado.
Entre os sinais observados estavam:
- • Tremores;
- • Vômitos;
- • Redução da temperatura corporal;
- • Alterações cardíacas.
Nos animais que receberam THC isolado, também foram registrados:
- • Ataxia, condição que prejudica a coordenação motora;
- • Incontinência urinária;
- • Diminuição da frequência cardíaca.
É importante destacar que esses efeitos foram passageiros, desaparecendo espontaneamente em até 24 horas, sem necessidade de tratamento específico.
Por que o THC diminuiu a temperatura corporal
Segundo os autores, o THC provocou a redução da temperatura corporal dos cães. Esse efeito provavelmente ocorre porque o canabinoide atua em regiões cerebrais responsáveis pelo controle da temperatura corporal.
Nos cães que receberam THC, a temperatura começou a cair a partir de 2 mg/kg. Em doses mais altas, alguns animais apresentaram temperaturas inferiores a 36°C.
Os tremores observados durante o estudo podem ter sido uma tentativa natural do organismo de produzir calor para compensar essa queda de temperatura.
O que aconteceu com o coração dos animais
Uma das partes mais importantes da pesquisa foi a avaliação cardíaca. Os cientistas utilizaram eletrocardiogramas para analisar a atividade elétrica do coração dos animais.
Nos cães que receberam THC, foram observadas alterações como:
- • Bradicardia: redução da frequência cardíaca, com o coração batendo mais lentamente que o normal.
- • Alterações na condução elétrica: mudanças em alguns intervalos do eletrocardiograma que indicam alterações na forma como os impulsos elétricos circulam pelo coração.
O CBD ajudou a amenizar os efeitos colaterais do THC
A combinação THC + CBD apresentou menos efeitos colaterais do que o THC isolado.
Algumas alterações cardíacas observadas com THC sozinho não apareceram ou foram mais discretas quando o CBD estava presente. Isso sugere que o canabidiol pode atenuar parte dos efeitos cardiovasculares provocados pelo THC.
Por outro lado, o CBD não conseguiu impedir a hipotermia causada pelo THC, indicando que nem todos os efeitos são reduzidos pela combinação dos dois compostos.
A pressão arterial e a respiração
Os efeitos sobre pressão arterial e respiração foram limitados.
De modo geral:
- • A pressão arterial permaneceu estável;
- • Não houve alterações respiratórias relevantes;
- • Apenas as doses mais altas provocaram mudanças discretas em alguns parâmetros.
Esses resultados mostram que os efeitos mais importantes observados neste estudo ocorreram principalmente sobre a temperatura corporal e o sistema cardiovascular.
Os resultados na prática
Os resultados reforçam uma mensagem importante: nem todos os produtos à base de Cannabis apresentam o mesmo perfil de segurança.
O CBD demonstrou boa tolerabilidade nos cães avaliados, enquanto o THC esteve associado à maior parte dos efeitos adversos registrados.
Isso não significa que o THC seja contraindicado em todas as situações. Indica que seu uso exige atenção especial quanto à dose e ao monitoramento clínico.
Além disso, o estudo fornece informações valiosas para pesquisadores que buscam desenvolver novos tratamentos veterinários à base de canabinoides.

De Beagles para outros cães
Apesar dos resultados relevantes, os próprios autores destacam algumas limitações.
O estudo envolveu apenas seis cães machos saudáveis, o que impede conclusões definitivas para toda a população canina.
As evidências apresentadas pelo estudo indicam que o CBD possui um perfil de segurança favorável em cães, mesmo em doses relativamente altas.
Já os produtos contendo THC provocaram efeitos fisiológicos importantes, incluindo hipotermia, tremores, vômitos e alterações cardíacas, com manifestações observadas a partir de 2 mg/kg.
Os resultados ajudam a estabelecer parâmetros de segurança para futuras pesquisas e reforçam a importância de diferenciar CBD e THC quando se discute o uso da Cannabis na saúde animal.
Entendendo o uso de Cannabis na veterinária
À medida que o interesse por canabinoides cresce na medicina veterinária, estudos como este serão fundamentais para definir quais compostos podem oferecer benefícios terapêuticos com maior margem de segurança para os cães.
Fonte: Sechat
