Estudo clínico indica que uma combinação de THC e CBD pode reduzir a agitação em pessoas com Alzheimer e outras demências avançadas.
Uma combinação de THC e CBD reduziu significativamente a agitação em pessoas com Alzheimer e outras demências em estágio avançado.
O resultado foi observado em um estudo clínico de fase 2 divulgado durante a Alzheimer’s Association International Conference 2026, realizada em Londres.
Batizado de LiBBY, o estudo envolveu 120 participantes com demência e agitação. Todos recebiam cuidados paliativos ou tinham condições que atendiam aos critérios para receber esse tipo de cuidado.
Depois de 12 semanas, 87% dos participantes que receberam o medicamento à base de Cannabis apresentaram melhora clínica. Entre aqueles que receberam placebo, o percentual foi de 23%.
Os benefícios começaram a ser observados apenas duas semanas após o início do tratamento.
Por que é tão difícil lidar com a agitação no Alzheimer e em outras demências
A agitação é um dos sintomas mais difíceis de controlar nos estágios avançados das demências. Pode se manifestar como inquietação, movimentos repetitivos, gritos, resistência aos cuidados e agressões físicas.
Pessoas com demência grave frequentemente não conseguem comunicar dor, medo ou desconforto. Por isso, esses comportamentos também podem indicar necessidades que elas já não conseguem mais expressar verbalmente.
De acordo com a Alzheimer’s Association, a agitação afeta aproximadamente metade das pessoas com demências avançadas.
Além de causar sofrimento ao paciente, o sintoma pode dificultar tarefas de cuidado, como alimentação, higiene e administração de medicamentos.
As primeiras abordagens costumam ser feitas sem o uso de medicamentos, por meio de estratégias como a organização de rotinas e a redução de estímulos.
Quando essas medidas não são suficientes, podem ser utilizados medicamentos. Porém, esse tipo de tratamento nem sempre funciona e pode causar sedação, confusão e outros efeitos adversos.

Como o estudo LiBBY foi realizado
O LiBBY foi um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. A pesquisa foi realizada em diferentes centros de pesquisa dos Estados Unidos durante 12 semanas. A idade média dos participantes era de aproximadamente 80 anos.
Os pacientes podiam continuar utilizando os demais medicamentos prescritos.
O medicamento à base de Cannabis era um óleo de uso oral. Ele podia ser ingerido, colocado sob a língua ou administrado por meio de sonda de alimentação.
Um óleo, duas doses e 12 semanas de acompanhamento
O medicamento utilizado no estudo continha THC e CBD na proporção 2:100. O tratamento começou com uma dose menor na primeira semana.
Nesse período, cada participante do grupo tratado recebeu duas doses por dia, totalizando:
- • 4 mg de THC;
- • 200 mg de CBD.
Da segunda semana até o final do estudo, a dose foi dobrada. Os participantes passaram a receber diariamente a dose total de:
- • 8 mg de THC;
- • 400 mg de CBD.
A mudança fazia parte do planejamento original do estudo. A primeira semana funcionou como um período de introdução gradual da formulação antes da utilização da dose completa.
Melhora começou na segunda semana
O principal resultado foi a mudança na pontuação do Cohen-Mansfield Agitation Inventory. Essa escala é usada para registrar com que frequência ocorrem diferentes comportamentos relacionados à agitação.
Depois de duas semanas, o grupo que recebeu canabinoides apresentou uma redução 6,27 pontos superior à observada no grupo placebo.
Ao final das 12 semanas, a diferença na escala de agitação havia aumentado para 8,23 pontos em favor do medicamento com canabinoides.
Nessa etapa, 87% dos participantes tratados apresentaram melhora clínica, em comparação com 23% no grupo placebo.
De acordo com os autores, os medicamentos à base de Cannabis podem proporcionar mais tranquilidade e dignidade em um período particularmente difícil para os pacientes e suas famílias.

O que mudou na rotina dos participantes
Entre os participantes do estudo LiBBY, estava Emilio Gonzalez, de 87 anos, que vivia com demência e Parkinson.
Seu filho, Dennys Gonzalez, contou ao The New York Times que inicialmente ficou receoso quando soube que o pai poderia receber um medicamento à base de Cannabis.
Antes do estudo, segundo Dennys, o pai podia reagir com agressividade quando alguém tentava ajudá-lo. Depois do início do tratamento, a família percebeu uma mudança no comportamento.
“Seu comportamento melhorou, seu nível de tolerância com outras pessoas melhorou”, destacou o filho.
Emilio também passou a aceitar com mais facilidade o auxílio em tarefas simples, como colocar os sapatos.
Resultados promissores, mas ainda preliminares
O ensaio representa um avanço por incluir pessoas com demência avançada, uma população frequentemente deixada de fora das pesquisas clínicas devido à vulnerabilidade, às dificuldades de comunicação e à complexidade dos cuidados.
Por se tratar de um estudo clínico de fase 2 com 120 participantes, o LiBBY oferece uma evidência importante.
No entanto, ainda não são suficientes para estabelecer o medicamento à base de Cannabis como um tratamento padrão para a agitação no Alzheimer e em outras demências.
Ensaios maiores poderão avaliar os mecanismos de ação, se o efeito se repete em diferentes grupos de pacientes e se os benefícios se mantêm por períodos mais longos.
