Você precisa entender como o CBD melhorou testes de memória e modulou o sistema endocanabinoide do hipocampo em modelo experimental
CBD – A memória guarda muito mais do que lembranças. Ela sustenta aprendizados, experiências e parte da identidade de cada indivíduo. Quando alterações hormonais comprometem esse processo, a ciência busca compreender quais caminhos podem ajudar a preservar a função cognitiva.
Foi justamente essa relação entre hormônios, cérebro e sistema endocanabinoide que motivou um estudo brasileiro a investigar os efeitos do canabidiol (CBD) em um modelo experimental de deficiência de estrogênio.
Publicada no Journal of Neuroendocrinology, a pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O trabalho mostrou que o CBD melhorou o desempenho em testes de memória e promoveu alterações no sistema endocanabinoide do hipocampo, região do cérebro diretamente ligada à aprendizagem e à formação de memórias.
Os resultados, no entanto, foram obtidos em animais e não devem ser interpretados como evidência de eficácia em humanos.
CBD e memória: como o estudo foi realizado
Para investigar os efeitos do canabidiol, a equipe utilizou ratas Wistar com três meses de idade, divididas em quatro grupos: um submetido a cirurgia simulada, outro formado por animais ovariectomizados sem tratamento e dois grupos de ratas ovariectomizadas tratadas com estradiol ou CBD.
Após três semanas de recuperação da cirurgia, os animais receberam aplicações subcutâneas de CBD na dose de 10 mg/kg, estradiol ou um veículo sem princípio ativo durante 21 dias.
Na sequência, os pesquisadores avaliaram a capacidade cognitiva por meio de dois testes amplamente utilizados em pesquisas pré-clínicas: o teste de reconhecimento de objetos e o teste de memória relacionada ao medo.
Segundo o artigo científico, o CBD melhorou o desempenho das ratas no teste de reconhecimento de objetos em um nível comparável ao observado com o estradiol. Além disso, tanto o tratamento com CBD quanto o hormonal reverteram os déficits observados no teste de memória motivada pelo medo.
Os próprios autores destacam que essa comparação diz respeito exclusivamente aos resultados obtidos nesse modelo experimental e não significa que o canabidiol possa substituir a terapia hormonal na prática clínica.
Sistema endocanabinoide do hipocampo apresentou alterações
Além dos testes comportamentais, os pesquisadores analisaram o hipocampo, estrutura cerebral essencial para os processos de aprendizagem e memória.
De acordo com o estudo, o tratamento com CBD reduziu a expressão das enzimas FAAH e MGLL, responsáveis pela degradação dos endocanabinoides anandamida e 2-AG. Como consequência, houve aumento dessas moléculas no cérebro dos animais.
O estradiol apresentou alterações semelhantes e também elevou a expressão da enzima NAPE-PLD, envolvida na síntese da anandamida.
Segundo os pesquisadores, essas mudanças reforçam a hipótese de que a modulação do sistema endocanabinoide pode estar relacionada à melhora da memória observada no experimento.
Resultados reforçam pesquisas sobre CBD e saúde da mulher
O estudo amplia uma linha de investigação que busca compreender a participação do sistema endocanabinoide nos processos cognitivos associados à deficiência de estrogênio, especialmente em modelos utilizados para estudar alterações semelhantes às observadas durante a menopausa.
Essa rede de comunicação presente no organismo é formada por receptores, moléculas produzidas pelo próprio corpo, chamadas endocanabinoides, e enzimas responsáveis pela síntese e degradação desses compostos. No cérebro, o sistema endocanabinoide atua na modulação de funções como memória, aprendizagem, humor e resposta ao estresse, com destaque para o hipocampo, região fundamental para a formação e recuperação de lembranças.
Nesse contexto, os pesquisadores investigaram como o CBD poderia influenciar essa sinalização cerebral em um modelo experimental de redução dos níveis de estrogênio.
Nos últimos anos, também tem crescido o interesse científico sobre o potencial da cannabis medicinal para sintomas relacionados ao climatério e à perimenopausa. Entretanto, os autores ressaltam que o modelo utilizado representa uma queda abrupta dos níveis hormonais provocada pela remoção cirúrgica dos ovários em animais jovens, cenário diferente da menopausa natural, que ocorre de forma gradual e envolve diversos fatores fisiológicos.
Outro aspecto importante é a forma de administração utilizada na pesquisa. O CBD foi aplicado por injeção subcutânea, método distinto das formulações comercializadas, como óleos e outros derivados utilizados por pacientes.
Por esse motivo, os resultados não permitem estabelecer doses, formas de uso ou recomendações clínicas para pessoas.
Pesquisa abre novas perspectivas para estudos clínicos
Embora os achados sejam considerados promissores dentro da pesquisa básica, os próprios autores destacam que ainda são necessários ensaios clínicos em humanos para confirmar se os efeitos observados podem ser reproduzidos em pacientes.
Até que essas etapas sejam concluídas, o trabalho representa mais um avanço na compreensão da interação entre o sistema endocanabinoide, os hormônios e os mecanismos da memória, contribuindo para o desenvolvimento de futuras estratégias terapêuticas baseadas em evidências.
O estudo reforça ainda o papel da pesquisa científica brasileira na investigação dos potenciais terapêuticos dos fitocanabinoides, ao ampliar o conhecimento sobre como o canabidiol pode atuar em processos neurobiológicos relacionados ao declínio cognitivo associado à deficiência de estrogênio.
Os fitocanabinoides são compostos naturais produzidos pela planta Cannabis, capazes de interagir com diferentes sistemas do organismo, incluindo o sistema endocanabinoide.
Entre os mais estudados estão o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), moléculas que apresentam estruturas e mecanismos de ação distintos. Enquanto o CBD tem sido investigado em pesquisas relacionadas à modulação da atividade cerebral, inflamação e equilíbrio fisiológico, outros fitocanabinoides também vêm sendo analisados pela ciência por suas possíveis aplicações terapêuticas.
Nesse cenário, estudos pré-clínicos como este buscam compreender como essas substâncias podem influenciar processos biológicos específicos antes da realização de ensaios clínicos em humanos.
Fonte: Sechat
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