Estudo clínico mostrou que altas doses de CBD reduziram a dor neuropática em pessoas com lesão medular.
Pesquisadores australianos publicaram os resultados de um estudo clínico sobre o uso do canabidiol (CBD) isolado para tratar a dor neuropática em pessoas que tiveram lesão medular.
Essa análise se diferencia de estudos anteriores porque utilizou doses muito mais elevadas de CBD. O resultado foi uma redução significativa da dor em pessoas com lesão medular, uma condição frequentemente associada a dores crônicas difíceis de tratar.
Os achados foram publicados na revista científica eClinicalMedicine, uma publicação do grupo da The Lancet, e ajudam a esclarecer questões sobre a importância da dose nos efeitos analgésicos do canabidiol.
Como foi realizado o estudo
A pesquisa com CBD foi conduzida por cientistas da Universidade de Sydney, na Austrália, e incluiu 38 adultos com dor neuropática crônica causada por lesão medular.
A dor neuropática surge quando há danos ou alterações no sistema nervoso. Diferentemente da dor provocada por uma lesão muscular ou inflamação, ela costuma ser descrita pelos pacientes como queimação, choques, formigamento ou sensações dolorosas persistentes.
Para avaliar o possível efeito terapêutico do CBD, os participantes receberam doses progressivas do canabinoide. O tratamento começou com 200 mg/dia nos primeiros quatro dias e chegou à dose de 800 mg/dia a partir do 13º dia.
Em outro momento do estudo, os mesmos participantes receberam placebo, permitindo uma comparação direta entre os dois tratamentos. Cada período de tratamento durou seis semanas, separados por quatro semanas de intervalo.
Nem os pacientes nem os pesquisadores sabiam qual substância estava sendo administrada em cada fase, um modelo considerado o padrão-ouro para avaliar a eficácia de tratamentos.

CBD reduziu a intensidade da dor
Os pesquisadores observaram que os participantes relataram menos dor durante o período em que utilizaram CBD em comparação com o placebo.
Na análise geral, a redução média da dor foi de aproximadamente 14% com CBD, enquanto o placebo produziu uma redução de cerca de 6%.
No entanto, os autores destacam que essa média deve ser analisada com mais detalhes. Cerca de 38% dos pacientes que receberam CBD apresentaram uma redução de pelo menos 30% na intensidade da dor. Esse patamar é considerado clinicamente relevante.
Isso significa que, embora nem todos tenham se beneficiado da mesma forma, uma parcela considerável dos participantes apresentou melhora importante.
Quem apresentou os melhores resultados
Os pesquisadores observaram que participantes que conviviam há mais tempo com a lesão medular e com a dor neuropática tendiam a apresentar reduções maiores da dor durante o tratamento com CBD.
No entanto, esse resultado foi considerado exploratório pelos cientistas e precisará ser confirmado em pesquisas futuras.
A dose pode fazer diferença
Essa pesquisa se destaca pela dose utilizada. De acordo com os autores, estudos clínicos anteriores que avaliaram o CBD isolado para dor neuropática geralmente utilizaram doses muito menores, variando entre 5 mg e 50 mg por dia. Esses trabalhos não encontraram benefícios significativos.
Já o estudo dos cientistas australianos elevou gradualmente a dose até atingir 800 mg diários, um valor muito superior ao adotado na maioria das pesquisas anteriores.
Os próprios autores observam que, em outras áreas da medicina, como epilepsia, ansiedade e alguns transtornos psiquiátricos, os efeitos clínicos do CBD costumam aparecer em doses mais altas, frequentemente entre 300 mg e 1.500 mg por dia.
Os resultados sugerem que algo semelhante pode ocorrer também no tratamento da dor neuropática causada por lesão medular com medicamentos ricos em CBD.
O que pesquisas anteriores já mostravam
Nos últimos anos, cientistas têm avaliado diferentes formulações à base de Cannabis para tratar complicações frequentes da lesão medular, como rigidez muscular e contrações involuntárias.
Um estudo anterior mostrou redução média de cerca de 30% na intensidade dos espasmos musculares com uma formulação contendo proporções semelhantes de CBD e THC.
Nesse contexto, o estudo clínico australiano amplia esse conhecimento ao demonstrar que o CBD isolado também pode trazer benefícios para uma das complicações mais desafiadoras de pessoas com lesão medular: a dor neuropática crônica.
Benefícios vieram do CBD isolado
O medicamento utilizado no estudo era à base de CBD isolado e não continha THC. Além disso, exames laboratoriais realizados durante a pesquisa não detectaram THC nem substâncias produzidas pelo organismo após processar o THC no sangue dos participantes.
Nesse caso, os resultados podem ser atribuídos especificamente ao CBD. Por outro lado, estudos anteriores sugeriram que a presença de THC pode ter papel importante no alívio da dor.
De acordo com os pesquisadores, o CBD foi bem tolerado pelos participantes. Os efeitos adversos mais relatados foram:
- • Sonolência;
- • Náusea;
- • Perda de apetite;
- • Desconforto abdominal.
A maioria desses eventos foi considerada leve.
Próximos passos da pesquisa
Para os autores, os resultados justificam novos ensaios clínicos com doses elevadas de CBD para dor neuropática relacionada à lesão medular.
Novas análises podem ajudar a confirmar os benefícios observados e identificar com mais precisão quais pacientes podem obter os melhores resultados.
