Neuropsicóloga explica por que adultos chegam aos 30, 40 ou 50 anos descobrindo o TEA após episódios de burnout, erros de diagnóstico e o peso de “mascarar” quem realmente são
A impressão constante de não se encaixar, a exaustão inexplicável após um dia comum de trabalho ou o rótulo de ser alguém “estranho”, “tímido demais” ou repleto de “manias”. Para milhares de brasileiros que chegam aos 30, 40 ou 50 anos sem entender o próprio funcionamento cerebral, a resposta para uma vida de incompreensão tem nome: Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Diferente do cenário atual, as gerações anteriores cresceram sob critérios clínicos antigos, que associavam o autismo apenas a casos severos ou com deficiência intelectual. Adultos com alto nível de compensação cognitiva aprenderam a se adaptar, mas a um preço invisível e devastador.
Segundo a neuropsicóloga especialista em avaliação cognitiva e diagnóstico de TEA em adultos, Andreza Mota, o principal fator que camufla o autismo na vida adulta é o fenômeno chamado masking (camuflagem social).
“No ambiente de trabalho e nas relações sociais, o adulto autista força o contato visual, decora roteiros de conversa e treina reações para se ajustar ao padrão neurotípico. É um esforço cognitivo monumental. O resultado dessa sobrecarga contínua é o burnout autista, que frequentemente força a pessoa a buscar ajuda profissional”, explica a especialista.
Sinais mascarados e o alívio do laudo
Antes de alcançarem o diagnóstico correto, é comum que esses adultos passem por anos de tratamentos inadequados para Ansiedade Generalizada, Depressão, TDAH ou até Transtornos de Personalidade. A busca por respostas definitivas costuma ser disparada por gatilhos específicos: o diagnóstico dos próprios filhos, momentos de transição de carreira ou crises profundas nos relacionamentos.
Entre os sinais que costumam passar despercebidos ou confundidos com “traços de personalidade” na maturidade, Andreza destaca: Rigidez e “manias”: Necessidade extrema de rotina e incômodo profundo com mudanças repentinas de planos; Hipersensibilidade “disfarçada”: Rejeição severa a texturas, luzes ou barulhos, rotulada socialmente como “frescura”; Hiperfoco: Dedicação profunda a temas específicos; Exaustão pós-social: Necessidade urgente de isolamento (como um quarto escuro) para se recuperar após eventos ou expediente de trabalho.
Apesar de ser um processo desafiador, que exige do neuropsicólogo a habilidade de “descascar” as camadas de compensação desenvolvidas ao longo de décadas, a confirmação do laudo traz um divisor de águas na saúde mental.
“O sentimento predominante é de alívio. A pessoa finalmente entende que não é ‘estragada’ ou ‘inadequada’, mas que possui um cérebro que processa o mundo de outra forma. É o ponto de partida para abandonar a camuflagem destrutiva, respeitar os próprios limites e reconstruir a autoimagem com dignidade”, pontua a neuropsicóloga.
Panorama na Bahia
Pela primeira vez incluído nas coletas de dados oficiais, o IBGE calculou que a Bahia concentra mais de 400 mil pessoas no espectro, com uma imensa fatia de adultos sem laudo conclusivo. Estima-se que entre 80 mil e 100 mil pessoas vivam com TEA na Região Metropolitana de Salvador, a maioria de nível 1 de suporte (antigamente chamado de Síndrome de Asperger), onde a camuflagem social é mais intensa. Estimativas internacionais atualizadas apontam que 1 em cada 36 pessoas está no espectro autista (cerca de 2,77%). Projetado para o Brasil, são aproximadamente 6 milhões de autistas.
Fonte: Priscila Chagas – Assessoria de Imprensa
