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O que a ciência e os médicos dizem sobre o uso de cannabis para TDAH

No Dia Mundial da Conscientização do TDAH, celebrado em 13 de julho, uma das dúvidas frequentes entre pacientes e familiares é se medicamentos à base de Cannabis podem contribuir para o tratamento do transtorno.

O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, conhecido como TDAH, é uma condição do neurodesenvolvimento marcada por sintomas persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Esses sinais podem continuar na vida adulta e afetar os estudos, o trabalho, os relacionamentos e a organização da rotina.

No entanto, os canabinoides ainda não são considerados tratamentos de primeira linha para os principais sintomas do TDAH.

O Cannabis & Saúde conversou com médicos que atendem pessoas com o transtorno e prescrevem medicamentos à base de Cannabis em situações específicas. Segundo eles, o uso depende de uma avaliação clínica individualizada. Além disso, a formulação deve ser escolhida de acordo com os sintomas predominantes.

TDAH pode vir acompanhado de outras condições

O diagnóstico de TDAH é complexo porque exige a exclusão de outras condições que também podem prejudicar a concentração. Os sintomas precisam causar impactos perceptíveis na vida cotidiana e estar presentes em mais de um ambiente.

Pessoas com TDAH também podem apresentar simultaneamente ansiedade, insônia, TEA, dor crônica e dificuldades de controle e manejo das emoções.

Por isso, o tratamento pode envolver medicamentos estimulantes ou não estimulantes, psicoterapia e adaptações escolares ou profissionais.

Quando a Cannabis entra no plano de tratamento do TDAH

Para o Dr. Vinicius Mesquita, os derivados da Cannabis podem ser uma opção em casos complexos ou que não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais.

Segundo o médico, mesmo quando não atuam diretamente sobre os principais sintomas do TDAH, os canabinoides podem contribuir para a qualidade de vida do paciente e de sua família:

“O foco costuma estar nas condições associadas que aumentam o sofrimento e pioram o funcionamento, como ansiedade, insônia, irritabilidade, dor ou dificuldade de regulação emocional. Quando essas condições melhoram, a pessoa pode dormir melhor, ficar menos reativa e conseguir organizar melhor a rotina. Indiretamente, isso pode favorecer a atenção e o controle dos impulsos”, afirma o médico.

O Dr. Gabriel Costa traz uma percepção baseada tanto em sua prática clínica quanto em sua experiência pessoal como paciente com TDAH. Ele relata que percebeu benefícios com o uso do canabigerol (CBG) e, posteriormente, incluiu esse canabinoide em seu repertório de alternativas terapêuticas.

“Sempre fiquei frustrado com os resultados inconsistentes da Cannabis em mim até eu me aprofundar mais nos estudos sobre o CBG e eu mesmo começar a utilizar.

Quando comecei a estudar sobre o CBG, a minha visão da Cannabis medicinal mudou totalmente. Diversos estudos observaram melhora da memória, concentração, procrastinação e motivação”, destacou Costa.

Estudos investigam benefícios, mas ainda há lacunas

As pesquisas sobre o uso de medicamentos à base de Cannabis para o TDAH ainda são escassas.

Um estudo acompanhou pacientes diagnosticados com o transtorno e inscritos no Registro de Cannabis Medicinal do Reino Unido. Os participantes utilizaram produtos com CBD, THC ou combinações. Os pesquisadores fizeram avaliações após 1, 3, 6 e 12 meses.

O tratamento foi associado a melhoras na qualidade de vida nos primeiros seis meses, além de resultados favoráveis relacionados à ansiedade e ao sono.

Esse trabalho analisou uma série de relatos clínicos. Nesse tipo de estudo, os pesquisadores acompanham um grupo de pacientes sem fazer comparação controlada com um grupo que recebeu placebo.

Além disso, os participantes utilizaram produtos e doses personalizadas. Por isso, a avaliação individual é uma parte fundamental do tratamento com canabinoides para pessoas com TDAH.

Outra pesquisa pretende ampliar o conhecimento científico sobre o tema. Um ensaio clínico randomizado e controlado por placebo vai investigar os efeitos do CBG sobre sintomas do transtorno. A pesquisa está buscando voluntários em todo o Brasil.

CBD, THC e CBG exigem cuidados diferentes

Apesar de serem compostos naturais, os canabinoides da Cannabis podem causar efeitos adversos. Os riscos variam conforme a formulação, a dose e as características do paciente.

Mesquita explica que o CBD não costuma produzir os efeitos psicoativos típicos do THC. Ainda assim, pode causar sonolência, alterações do apetite, elevação das enzimas hepáticas e interações com outros medicamentos.

De acordo com o médico, o THC exige mais atenção por causa de possíveis efeitos colaterais em pacientes com TDAH.

“O THC pode piorar atenção, memória, velocidade de resposta e funções executivas. Também pode provocar ansiedade, pânico, paranoia, taquicardia, sedação e sintomas psicóticos.

Esses riscos reforçam a importância da responsabilidade técnica do médico na escolha da composição e da origem do produto, assim como na avaliação da qualidade do fabricante.

Em quadros complexos, esses riscos não devem ser analisados isoladamente. É necessário comparar o risco do tratamento com o risco de não tratar.”

O Dr. Gabriel Costa menciona que o CBG pode provocar insônia e ansiedade. Ele também salienta que alguns grupos exigem atenção redobrada.

“Na infância e adolescência é preciso ter cuidado com o uso do THC. Se na família tiver um caso próximo de esquizofrenia é interessante não utilizar THC ou ter ainda mais cuidado. Se for gestante, é contraindicado. E muito cuidado em pacientes bipolares.”

Como avaliar se o tratamento funciona

Antes do início do tratamento, é necessário estabelecer objetivos claros, como melhorar o sono, reduzir a ansiedade, controlar a dor ou facilitar atividades cotidianas.

Mesquita afirma que a decisão sobre a continuidade do tratamento depende tanto da percepção do paciente quanto de mudanças observáveis na rotina. Os efeitos colaterais e as interações com outros medicamentos também precisam ser monitorados.

A suspensão do tratamento ocorre quando não há melhora suficiente, quando os efeitos adversos superam os ganhos ou quando surgem sinais de piora cognitiva, emocional ou comportamental.

Costa relata que alguns pacientes podem reduzir a dose de outros medicamentos após iniciarem o uso de produtos com canabinoides. Essa redução, porém, não deve ser realizada sem acompanhamento médico.

“Tudo depende da melhora dos sintomas, se o paciente está utilizando psicoestimulante e a Cannabis medicinal, a tendência é que o paciente utilize cada vez menos os psicoestimulantes, e deixa o psicoestimulante apenas para situações mais específicas.”

Diagnóstico e acompanhamento continuam essenciais

O Dia Mundial de Conscientização do TDAH é uma oportunidade para dar visibilidade a novas possibilidades terapêuticas e reconhecer os limites do conhecimento atual.

No tratamento do TDAH, é importante compreender que a Cannabis medicinal não representa um único produto nem produz os mesmos efeitos em todas as pessoas. CBD, THC e CBG possuem características distintas e seus possíveis benefícios podem variar de pessoa para pessoa.

Qualquer uso de medicamentos à base de Cannabis deve partir de diagnóstico adequado, objetivos claros e acompanhamento profissional.

Fonte: Cannabis & Saúde
Image by freepik

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