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Pandemia multiplica desinformação em saúde, mas conteúdos enganosos persistem

87% das alegações checadas em quase uma década são falsas, aponta novo estudo da Agência Lupa 

O fim da pandemia não freou a desinformação em saúde no Brasil, que passou a abordar novos assuntos e incorporar ferramentas. Vacinas, dengue, diabetes, câncer e alimentação ganharam espaço entre os temas explorados. Ao mesmo tempo, antigas fórmulas – como promessas de cura e distorção de evidências científicas – sobreviveram e passaram a circular em novos formatos, como vídeos manipulados, deepfakes, anúncios pagos e ofertas comerciais. É o que revela o “Raio-X da Desinformação em Saúde — O que quase 10 anos de checagens revelam sobre as mentiras que ameaçam a saúde dos brasileiros”, novo relatório do Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, com apoio da Afya, maior ecossistema de educação e soluções para prática médica do Brasil. O estudo analisou o acervo de checagens sobre saúde publicadas pela Lupa entre 2017 e 30 de junho de 2026.

Nesse período, foram analisadas 764 alegações (extraídas de 498 verificações) sobre saúde, das quais 667, ou 87,3%, foram classificadas como falsas. O volume disparou durante a pandemia: em 2020 e 2021, a Lupa checou 452 conteúdos virais sobre saúde, cerca de dez vezes mais que nos três anos anteriores.

Para Maiquel Rosauro, pesquisador da Lupa responsável pelo estudo, a pandemia ampliou a escala da desinformação em saúde, mas também reforçou estratégias que já circulavam antes da crise sanitária.

“O que o estudo mostra, olhando para quase 10 anos de checagens, é que muitas das técnicas que explodiram naquele momento já existiam antes e continuam sendo usadas hoje. A mentira mudou de assunto, incorporou novas ferramentas, mas preservou mecanismos de persuasão muito parecidos”, afirma.

Como a desinformação mudou depois da pandemia

Para acompanhar essa transformação, o relatório divide o período analisado em quatro ciclos. Antes da pandemia, entre 2017 e 2019, predominavam conteúdos que associavam alimentos, bebidas, plantas e substâncias de fácil acesso à prevenção ou cura de doenças graves. De 2020 a 2021, a Covid-19 passou a dominar a desinformação, a partir da explosão de alegações falsas sobre vacinas, tratamentos e medidas de prevenção.

Entre 2022 e 2024, o coronavírus perdeu protagonismo, mas as vacinas não. Ganharam espaço, por exemplo, conteúdos que prometiam “desintoxicar” o organismo das vacinas ou atribuíam aos imunizantes doenças e problemas de saúde.

Já no quarto período, entre 2025 e junho de 2026, o estudo identificou uma retomada das promessas de curas simples e tratamentos milagrosos. Receitas caseiras passaram a conviver com anúncios pagos, vídeos manipulados por inteligência artificial e falsas declarações atribuídas a médicos. Nomes de medicamentos conhecidos também passaram a ser usados para dar credibilidade a ofertas enganosas.

Antes da Covid-19, as vacinas apareciam em 9,1% das checagens de saúde. A proporção subiu para 33,2% durante a pandemia e chegou a 38,9% entre 2022 e 2024. Entre 2025 e junho de 2026, caiu para 20%, mas permaneceu em um patamar mais de duas vezes superior ao observado antes da pandemia. Das 244 alegações sobre vacinas analisadas em todo esse período, 212 (86,9%) eram falsas.

Falsa autoridade e medo estão entre as principais estratégias

A análise também mapeia as principais técnicas usadas para tornar conteúdos enganosos mais convincentes. A mais frequente é o uso de falsa autoridade médica ou científica, identificada em 21,59% dos casos. Na sequência aparecem o medo e a linguagem alarmista (17,09%), a distorção de estudos e dados (15,74%) e a oferta de soluções simples para problemas complexos (12,59%).

A desinformação também se apropria da credibilidade da ciência: declarações verdadeiras podem ser retiradas de contexto, limitações de pesquisas podem ser omitidas e falas que nunca existiram podem ser atribuídas a especialistas.

O uso do medo também ganhou força. Embora apareça em 17,1% das alegações de todo o período analisado, a estratégia esteve presente em 33,82% dos casos entre 2025 e junho de 2026. Alegações desse tipo costumam associar vacinas, tratamentos ou produtos a consequências graves, como câncer, infertilidade ou morte.

Para a Afya, o cenário amplia a importância de preparar profissionais de saúde para atuar também diante da desinformação. “Combater a desinformação e a falsificação na saúde também é uma competência médica. Hoje, o profissional de saúde precisa estar preparado não apenas para diagnosticar e tratar, mas também para ajudar o paciente a navegar em um ambiente de excesso de informações, muitas delas sem respaldo científico. A popularização das ferramentas de inteligência artificial amplia ainda mais as possibilidades de acesso ao conhecimento e torna essa capacidade de avaliar e interpretar informações cada vez mais importante. Mais do que saber identificar o que é verdadeiro ou falso, o médico precisa ser capaz de transformar informação em compreensão, ajudando o paciente a fazer escolhas mais conscientes sobre a própria saúde”, afirma Gustavo Meirelles, vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya.

WhatsApp aparece em 70,5% das checagens analisadas

O estudo também investigou como e onde esses conteúdos circulam. Entre as 498 checagens que compõem a base da pesquisa, o WhatsApp aparece em 351 (70,5%), seguido pelo Facebook (25,3%), Instagram (7%), sites (5,8%) e X/Twitter (3,8%). Apesar da expansão dos vídeos e de ferramentas de IA, o texto ainda aparece em 99,4% das 498 verificações. Vídeos estão presentes em 34,3% e imagens em 26,1%. Em 74,5% dos casos, dois ou mais formatos aparecem combinados. A associação mais frequente é texto e vídeo, identificada em 27,9% das checagens.

Isso ocorre porque, muitas vezes, não é a imagem ou o vídeo que contém a mentira. Uma foto verdadeira pode ganhar uma legenda falsa; um vídeo autêntico pode ser apresentado como registro de outro episódio; e um áudio pode ser falsamente atribuído a um médico. O texto – em legendas, títulos, comentários ou mensagens de encaminhamento – direciona a interpretação.

Outro fenômeno identificado é o avanço da exploração comercial da desinformação em saúde. Das 18 verificações que envolviam exploração comercial analisadas desde 2017, 14 ocorreram depois de 2021. Em 17, o conteúdo levava à venda de um produto ou serviço. Presente em sete das 18 checagens, o diabetes lidera o recorte de doenças mais exploradas, com produtos que prometem controlar ou reverter a doença, dispensar medicamentos e eliminar restrições alimentares.

Ao menos 142 das 498 verificações registravam a presença de figuras públicas, cujos nomes, imagens ou reputações são apropriados para sustentar conteúdos enganosos.

“Um dos maiores desafios da desinformação em saúde é que ela se apropria da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para parecer legítima. Não basta dizer que uma informação é falsa: é preciso ajudar as pessoas a reconhecer como essa manipulação é construída”, conclui Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inovação e Formação da Agência Lupa.

Sobre a Agência Lupa

Fundada em 2015 pela jornalista Cristina Tardáguila, a Agência Lupa completa uma década de atuação no combate à desinformação e na qualificação do debate público no Brasil. A instituição conta com uma equipe de mais de 30 profissionais especializados em desenvolver soluções multiformato para promover o pensamento crítico, a consciência digital e o acesso a informações baseadas em fatos.

Fonte: Darana RP
Foto: Magnific

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