Pesquisa clínica sugere melhora na percepção da dor e nos sintomas emocionais
Na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, um grupo de 50 mulheres com endometriose aceitou participar de uma jornada científica em busca de alívio. O estudo avaliou o canabidiol (CBD), substância derivada da Cannabis sativa, como possível aliado na redução da dor e de outros sintomas.
Foram selecionadas e acompanhadas, durante nove meses, pacientes que não obtiveram melhora com tratamento hormonal ou cirurgias. O estudo utilizou um modelo duplo-cego: metade das voluntárias recebeu o canabidiol e a outra metade, placebo. Também, apostou em um acompanhamento, quase diários junto às pacientes, que iniciaram com 10 miligramas de óleo de CBD, chegando progressivamente até 150 miligramas.
Canabidiol = “Melhoras robustas”

Segundo o coordenador do estudo, professor Oméro Benedicto Poli Nétto, os resultados foram relevantes. Um dos pontos de destaque foi a redução significativa na percepção da dor, medida por meio de escala analógica visual. “O que nós percebemos é que há uma queda importante na intensidade da dor. Pacientes que relataram nota 10, por exemplo, passaram a registrar 7 ou até 5”, explicou Oméro.
Mesmo assim, o pesquisador alerta para a proximidade de resultados entre o efeito placebo e o canabidiol, em relação à dor. “Esse contato muito próximo da equipe médica com as pacientes pode ter interferido bastante no processo de melhora. Mas, de qualquer maneira, mostra que, com suporte clínico adequado ou com o uso do CBD, é possível alcançar avanços significativos”, destacou.
A pesquisa também aponta melhora em sintomas psicológicos, como ansiedade e depressão, e na qualidade de vida das pacientes – embora algumas tenham apresentado sonolência durante o dia.
“Não há dúvida de que o canabidiol traz melhoras robustas para essas pacientes”, afirmou o pesquisador.
Uma em cada dez brasileiras sentem na pele
De acordo com o Ministério da Saúde, uma em cada dez brasileiras sofre com endometriose. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a doença atinja 176 milhões de mulheres no mundo, incluindo mais de 7 milhões no Brasil. Mesmo com tratamentos eficazes, cerca de 30% das pacientes não apresentam resposta satisfatória. Esse foi o grupo escolhido para a pesquisa com canabidiol.
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele, provocando inflamação, dor intensa na região pélvica e, em alguns casos, infertilidade. Embora não tenha cura, a doença pode ser controlada com medicamentos ou cirurgia.
Publicação em análise e novas perspectivas
A pesquisa está finalizada e aguarda aprovação em periódico científico. Segundo a FMRP, o artigo já passou pelas últimas etapas de revisão e pode ser publicado ainda em setembro.
“Esse é o primeiro estudo no mundo a ser concluído sobre o tema. Ele abre caminho para compreendermos melhor como o CBD atua em pacientes com endometriose e dor crônica. Novas pesquisas bem desenhadas poderão trazer mais luz para médicos e pacientes”, disse Oméro.
O pesquisador adiantou que já está planejando uma nova pesquisa, voltada à percepção diferenciada de dor em mulheres com endometriose. Segundo ele, pacientes que convivem com a dor diariamente, apresentam maior intensidade que a população em geral.
“Nossa aposta é que o CBD, ou mesmo a combinação de CBD e tetrahidrocanabinol (THC), possa atuar modulando essa percepção, com efeito sobre o sistema nervoso central e não apenas na doença periférica”, explicou.
Fonte: Sechat
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