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Dia da Consciência Negra: A história da cannabis no Brasil e sua relação com a resistência

Podcast debate como a trajetória da planta no país é indissociável da luta da população negra

Neste dia 20 de novembro, celebra-se o Dia da Consciência Negra, data fundamental dedicada à reflexão sobre a luta e as contribuições inestimáveis da população negra. A escolha da data marca a morte de Zumbi dos Palmares e, desde 2023, é feriado nacional, reforçando o combate ao racismo. Este momento também convida a revisitar fatos apagados, como a complexa história da cannabis no Brasil.

Para além das celebrações oficiais, é preciso compreender a relação entre a população negra e a planta. Em entrevista ao podcast Deusa Cast, o historiador Luiz Fernando Petty e a dentista Joyce Bernardo trouxeram à tona fatos essenciais. Eles discutem como a história da cannabis no Brasil está ligada ao racismo, à proibição e à ancestralidade.

A história da cannabis no Brasil: mitos da chegada

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O historiador Petty e a dentista canábica Joyce Bernardo foram os convidados do Deusa Cast que trouxe o embasamento histórico da cannabis | Foto: Divulgação


Um dos pontos centrais debatidos foi a introdução da cannabis no território nacional. Existe uma crença popular de que sementes teriam sido trazidas por pessoas escravizadas, escondidas em bonecas de pano ou roupas. No entanto, a verdadeira história da cannabis no Brasil aponta para uma realidade diferente e mais cruel.

O historiador Luiz Fernando Petty pondera sobre essa versão, classificando-a como “pouco provável” diante do contexto do tráfico negreiro. Ele ressalta as condições desumanas a que essas pessoas eram submetidas durante a travessia.

“As pessoas escravizadas no Brasil, elas primeiro eram sequestradas dos seus territórios, vinham nuas e também não sabiam que estavam sendo escravizadas, nem que estavam vindo para outro território”, explica Petty.

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Chegada das grandes embarcações, feitas com cordas e outros materiais de cânhamo. Imagem gerada por IA do Canva Pro

Segundo evidências históricas, as sementes chegaram principalmente através de viajantes, marinheiros e empreendimentos da Coroa Portuguesa, como a Real Feitoria de Linho Cânhamo. Contudo, o uso cultural e social foi consolidado pelos povos africanos e seus descendentes. Foram eles que batizaram a erva com nomes como diamba, liamba e maconha.

“Maconha vem da palavra ‘macanha’, que é africana e significa ‘erva sagrada'”, pontua o historiador.

Proibição e controle social na história da cannabis no Brasil


A conversa também iluminou como a proibição da planta não teve origem em preocupações sanitárias. Na verdade, o veto funcionou como uma ferramenta de controle social da população negra, especialmente no pós-abolição. Esse é um capítulo decisivo na história da cannabis no Brasil.

Petty destaca que, enquanto hábitos europeus eram aceitos socialmente, as práticas negras eram sistematicamente criminalizadas. A perseguição focava especificamente na cultura e nos rituais de matriz africana.

“Se fosse branco que usasse, como usava o tabaco e o álcool, a maconha nunca teria sido criminalizada no Brasil. Mas como foi associada aos grupos negros… se buscou maneiras de criminalizar essa população recém-liberta”, afirma Petty.

Essa repressão culminou na lei do “Pito do Pango”, de 1830, no Rio de Janeiro. Considerada a primeira lei do mundo a proibir o uso da planta, ela punia especificamente os escravizados que a utilizavam.

Ancestralidade e cura


A dentista Joyce Bernardo trouxe para o debate a perspectiva da ancestralidade e do uso medicinal histórico. Para a população negra escravizada, a planta transcendia o uso recreativo. Ela era uma ferramenta de sobrevivência física e espiritual dentro da dura história da cannabis no Brasil.

A erva era utilizada para suportar as dores do corpo e da alma decorrentes da violência do sistema escravocrata. O uso envolvia a maceração das folhas para tratar feridas e rituais de conexão espiritual.

“Eles começaram a entender o poder que a planta trazia… a planta foi colocada de fato como uma deusa, para ritualizar, cantar e trazer a cura”, relata Joyce.

Fonte: Sechat
Foto: Reprodução Sechat

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