Relatório do Pnuma com participação de mais de 80 cientistas alerta para danos aos oceanos que podem persistir por séculos, mesmo após a redução das temperaturas globais
Ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015 pode provocar perdas irreversíveis de gelo, acelerar a elevação do nível do mar e comprometer o equilíbrio dos oceanos por séculos. É o que aponta o relatório Overshoot and the Cryosphere: Averting Global Meltdown, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), com a participação de mais de 80 cientistas.
Divulgado na noite de domingo (1), às vésperas da COP31, sediada pela Turquia, o documento alerta que mesmo uma redução posterior das temperaturas não seria suficiente para reverter todos os impactos sobre as regiões congeladas do planeta. Os efeitos são sentidos principalmente pelas comunidades costeiras, as primeiras a sofrerem com a elevação do nível do mar decorrente da perda desse gelo.
O relatório reúne evidências científicas sobre as consequências de ultrapassar o limite estabelecido pelo Acordo de Paris, fenômeno conhecido como overshoot. A análise considera diferentes cenários em que o aquecimento supera 1,5°C e depois retorna a níveis inferiores. Segundo os pesquisadores, quanto maior a temperatura atingida e mais longo o período acima desse limite, maiores serão os danos.
Atualmente, as grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida perdem massa cerca de seis vezes mais rapidamente do que na década de 1990. Os impactos também atingem geleiras de montanha, reservas de neve e solos permanentemente congelados, o chamado permafrost. O desaparecimento dessas áreas ameaça o abastecimento de água, aumenta o risco de desastres em regiões montanhosas, como o que atingiu o Nepal em agosto de 2026, e pode liberar gases de efeito estufa armazenados no solo.
Um dos capítulos do relatório, que conta com a participação do pesquisador brasileiro Thiago Monteiro, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), trata das alterações nos oceanos Ártico e Antártico, que desempenham um papel fundamental na regulação do clima de todo o planeta. Mesmo após a queda das temperaturas globais, esses efeitos podem persistir por séculos.
O cientista explica que uma das consequências mais preocupantes para o Brasil é a elevação do nível do mar: “O derretimento do gelo continental da Antártica, juntamente com a expansão da água do mar provocada pelo aquecimento, contribui para esse aumento. No Brasil, isso significa maiores riscos de inundações costeiras, erosão das praias e entrada de água salgada em aquíferos e áreas agrícolas. Esses impactos ameaçam diretamente cidades costeiras, moradias, infraestrutura, turismo e diversas atividades econômicas”.
Monteiro detalha ainda que o excesso de dióxido de carbono na atmosfera altera a química das águas brasileiras e intensifica a acidificação dos oceanos. Isso prejudica organismos marinhos como corais e moluscos, cadeias alimentares, atividades pesqueiras e, consequentemente, a segurança alimentar de comunidades que dependem dos recursos marinhos. Além disso, as mudanças na circulação dos oceanos polares, como o enfraquecimento de grandes correntes oceânicas no Atlântico, podem afetar o clima de regiões tropicais, alterando a distribuição das chuvas no Brasil, acrescenta o pesquisador.
Segundo Monteiro, a perda de gelo marinho ao redor da Antártica também merece atenção. “O gelo funciona como uma superfície que reflete parte da radiação solar de volta ao espaço. Quando desaparece, o oceano absorve mais calor, contribuindo para intensificar o aquecimento global. Esse processo adiciona pressão a um planeta que já enfrenta ondas de calor cada vez mais perigosas”, aponta.
Para limitar os impactos, os autores defendem a redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa, com diminuição de pelo menos 5% ao ano e alcance de emissões líquidas zero até meados do século. Também apontam a necessidade de ampliar a remoção de carbono da atmosfera e os investimentos em adaptação climática. Segundo o relatório, manter o aquecimento acima de 1,5°C pelo menor tempo possível é fundamental para evitar danos ainda maiores, embora uma temperatura próxima de 1°C ou inferior seja considerada mais segura, no longo prazo, para as regiões congeladas da Terra.
Fonte: Agência Bori
Foto: James Kirkham / ICCI
