Bitcoin volta aos US$ 86 mil e renova máxima de oito meses; analistas pedem cautela
O Bitcoin rompeu a faixa dos US$ 86 mil nesta segunda-feira (21) e renovou a máxima de oito meses, no maior patamar desde janeiro. A criptomoeda avançou cerca de 5,4% em 24 horas e recuperou terreno depois de uma semana em que chegou a ser negociada perto dos US$ 75 mil, sob o peso da alta de juros do Federal Reserve e da derrota do CLARITY Act no Senado dos Estados Unidos.
A retomada do Bitcoin surpreendeu parte do mercado pela velocidade com que o ativo digeriu notícias que, dias antes, pressionavam as cotações. O movimento, no entanto, está longe de ser consenso: a disparada foi acelerada por derivativos e por um short squeeze — a corrida de quem apostava na queda para encerrar posições vendidas —, o que levou gestores e casas de análise a recomendar prudência no curto prazo.
O combustível do rali veio do mercado de derivativos. Na abertura dos negócios europeus, o saldo líquido de compras agressivas nesse segmento passou de US$ 11 milhões para US$ 618 milhões em apenas uma hora, movimento que o CIO da Vault Capital, Marco Aurélio de Camargos, considerou raro pela concentração de apetite em janela tão estreita, segundo o IstoÉ Dinheiro.
O analista Pedro Fontes, do Mercado Bitcoin, calculou que perto de US$ 400 milhões em posições vendidas foram encerradas em quatro horas. Antes da disparada, o mapa de liquidação apontava cerca de US$ 5 bilhões em apostas na queda concentradas na faixa entre US$ 83 mil e US$ 85 mil. Como quem tem posição vendida liquidada precisa recomprar o ativo, o fluxo empurra o preço e derruba a aposta seguinte, em efeito cascata — o que ajuda a explicar a aceleração em poucos minutos.
A alta não ficou restrita à alavancagem. No mercado à vista, o saldo comprador alcançou cerca de US$ 332 milhões, o maior do mês, e os fundos negociados em bolsa (ETFs) à vista de Bitcoin nos Estados Unidos captaram US$ 433 milhões na sexta-feira (18), maior entrada diária desde 3 de setembro. Camargos observa que o intervalo de US$ 83 mil a US$ 86 mil equivale ao preço médio de aquisição dos ETFs e que superá-lo de maneira sustentada depende de fluxo comprador no mercado à vista, não apenas de recompras de posições vendidas.
Regulação nos EUA reacende o apetite por risco
O ambiente regulatório americano ajudou a destravar o movimento. Na semana passada, o Senado não conseguiu avançar o CLARITY Act, texto que criaria um marco regulatório mais nítido para o setor de ativos digitais. Dias depois, a SEC autorizou temporariamente a negociação de ações de empresas americanas tokenizadas, com isenção regulatória de cinco anos, medida lida pelo setor como sinal de que a agenda do segmento segue ativa.
A Tagus Capital atribui o rali à sinalização da SEC e avalia que o Ethereum tende a ser o maior beneficiado, por ser a principal blockchain pública usada para tokenizar ativos. Em relatório assinado por Matheus Parizotto e Vinicius Bitelo, o BTG Pactual avalia que a resposta da SEC e da CFTC ao revés no Senado indica continuidade da agenda regulatória, algo considerado positivo para o setor no médio e longo prazos. O cenário-base do banco não prevê nova votação do texto no Senado ainda em 2026.
As principais altcoins também reagiram. O token HYPE marcou nova máxima histórica, acima de US$ 95, enquanto o UNI acumula ganho de aproximadamente 42% na semana, favorecido pela atenção maior ao tema da tokenização. Na avaliação do banco, Solana e Ethereum estão entre os ativos que podem se beneficiar, junto com protocolos como Hyperliquid e Uniswap.
Trimestre forte, mas ainda distante do recorde
Entre julho e setembro, a criptomoeda acumula valorização de cerca de 44% e caminha para o melhor desempenho trimestral desde o quarto trimestre de 2024. Ainda assim, o preço segue 48% abaixo da máxima histórica de US$ 126 mil, atingida em outubro do ano passado.
O ambiente externo também contribuiu para o apetite por risco. O barril de petróleo recuou pela quarta sessão seguida, com a perspectiva de avanço diplomático entre Estados Unidos e Irã reduzindo parte do temor com inflação e juros. Em Wall Street, o Nasdaq subiu 2,3%, no melhor desempenho desde agosto.
No front corporativo, a Strategy, dona da maior tesouraria de Bitcoin entre companhias listadas, informou a compra de 950 unidades adicionais por US$ 75,7 milhões, o que elevou sua posição a 846 mil bitcoins. A Strive, outra empresa com estratégia de tesouraria em Bitcoin, anunciou a aquisição de 1.355 unidades.
O que os analistas monitoram antes de falar em virada
A velocidade do rali acendeu o alerta sobre o risco de realização de lucros. Pedro Fontes lembra que volatilidade e correção são naturais depois de um avanço tão rápido. Camargos aponta na mesma direção e alerta que, se a alta continuar dependendo apenas de derivativos, a alavancagem comprada agora vira a liquidez da correção seguinte.
Para o gestor da Vault, a virada de tendência só se confirma com dois fechamentos acima de US$ 82,5 mil: o semanal, no domingo (27), e o mensal, em 30 de setembro. Na visão dele, o patamar de US$ 90 mil ainda não está ao alcance do mercado, e uma correção natural tende a ocorrer após o rompimento.
Se o preço recuar, o primeiro suporte fica em US$ 82,5 mil e o segundo, em US$ 80 mil; abaixo disso, volta a se abrir a faixa de US$ 72 mil a US$ 80 mil. Camargos também vê uma mudança de comportamento do ativo, que em dias de estresse, como o da decisão do Fed, conseguiu fechar em alta e passou a se comportar mais como o ouro e a prata do que como as ações de tecnologia.
Na leitura de Gabriel Dellatorre, sócio da Vault Capital, a retomada não representa necessariamente o começo de um ciclo prolongado de valorização. O gestor traça um paralelo com o que se viu depois dos tombos de 2019 e 2022, quando repiques vigorosos deram lugar a meses de preços laterais antes de uma tendência mais clara, conforme o Valor Econômico.
Fonte: Space Money
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