Diante da acessibilidade e inclusão limitadas na educação e no mercado de trabalho, o Instituto de Tecnologia em Educação e Saúde da Bahia (ITESB) atua em Salvador com foco na formação e empregabilidade de pessoas surdas. A iniciativa aposta em ensino bilíngue (libras-português), atendimento multidisciplinar e estratégias de inclusão para transformar realidades e promover autonomia para essas pessoas.
Com quase 18 anos de história, o Instituto, idealizado pelo médico Lucas Rabello, nasceu com o objetivo de prestar assistência social em saúde para pessoas em situação de vulnerabilidade, mas ganhou um novo propósito em 2018. Com o nascimento de seu filho, Gustavo, diagnosticado com surdez profunda, Lucas percebeu as carências do sistema e redirecionou a atuação da entidade. Desde 2020, o ITESB oferece serviços multidisciplinares com foco na educação de crianças surdas e na empregabilidade de jovens e adultos.
“O nascimento de um filho transforma vidas. Ao buscar uma escola bilíngue (Libras-português) em Salvador, não encontrei essa oferta especializada para a educação infantil. Sem isso, a formação de crianças e jovens surdos fica comprometida, acarretando em empregos menos qualificados na vida adulta. Percebi a necessidade de dar mais atenção a esse público, especialmente na área da educação e empregabilidade”, afirma Lucas Rabello.
A atuação do ITESB foca em resolver problemas imediatos: enquanto muitas crianças surdas contam apenas com intérpretes em salas de aula regulares, o Instituto disponibiliza pedagogos bilíngues para adaptar o material didático. O objetivo é garantir que o aluno não apenas esteja presente, mas que de fato aprenda. Essa base é essencial para reverter estatísticas como a do Instituto Locomotiva, que aponta que apenas 37% das pessoas com deficiência auditiva estão no mercado de trabalho brasileiro. Para o ITESB, a inclusão efetiva passa pela autonomia, alcançada quando o surdo tem acesso a uma formação de qualidade e a empresas preparadas para recebê-lo.
“O principal desafio hoje é o financiamento. Precisamos de um espaço para a implantação da escola bilíngue no ano que vem, em parceria com instituições de referência como a UFBA e o Centro de Educação para Surdos Rio Branco, e de novas formas de captação de recursos. Atualmente, contamos com o apoio de diversas instituições, doações de pessoas físicas e com o tempo de profissionais voluntários que tornam nossas ações possíveis”, pontua Lucas.
Entre os profissionais que integram o Instituto está a estrategista de comunicação Kira Perdigão. Ela destaca que o papel da organização é atuar justamente onde o sistema muitas vezes não alcança. “O que mais me chamou atenção foi a capacidade de integrar educação, saúde e assistência social de forma prática e acessível. Percebemos que, apesar do grande impacto gerado, a comunicação ainda não refletia totalmente essa força, o que pode limitar oportunidades de expansão. Assumir a comunicação de uma organização social exige traduzir impacto em valor percebido, equilibrando emoção e estratégia para que as histórias do Instituto mobilizem apoio e decisões concretas. É o que estamos fazendo em conjunto agora”, explica Kira.
O Instituto segue trabalhando para que a inclusão em Salvador deixe de ser um conceito abstrato e se torne uma realidade cotidiana. “Meu desejo é criar um lugar abrangente, onde os surdos possam se sentir pertencentes, com oportunidade de emprego e atendimento especializado. Lutamos para que a língua de sinais tenha a mesma visibilidade de outras línguas estrangeiras. Poderíamos, inclusive, implementá-la como obrigatória em escolas regulares, o que sabidamente desenvolve o aprendizado e o estímulo cognitivo também das crianças ouvintes”, finaliza o idealizador do projeto.
Foto: Arquivo pessoal
