Saber falar e não saber ler é a realidade de muitos brasileiros que convivem com o analfabetismo
Em uma sociedade em que placas, documentos, aplicativos, receitas médicas e contratos fazem parte da rotina, não saber ler e nem escrever pode significar depender do outro para tarefas simples e abrir mão, muitas vezes em silêncio, da própria autonomia. A frase “Eu sei falar, mas não sei ler” carrega uma contradição que diz muito sobre o Brasil: pessoas que se comunicam, trabalham, criam filhos, circulam pela cidade, fazem compras e constroem suas próprias histórias, mas que, diante de uma palavra escrita, podem se sentir incapazes, inseguros ou dependentes.
Para quem não sabe ler, ou lê com muita dificuldade, ações consideradas banais podem se transformar em obstáculos cotidianos. E é justamente aí que o analfabetismo deixa de ser apenas uma questão educacional e passa a ser também uma questão de dignidade, cidadania e autonomia. Com o intuito de transformar esta realidade nasceu o Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Instituto Yduqs, hoje com mais de 20 unidades em todo o país, com cerca de 100 educadores envolvidos e mais de 2.500 alunos formados.
De acordo com a docente das Licenciaturas e coordenadora de uma das unidades do Programa de Alfabetização do Instituto Yduqs, na Estácio, Laís Lira, muitas histórias vividas em sala de aula mostram que alfabetizar vai muito além de ensinar alguém a reconhecer letras e formar palavras. “Em uma sociedade letrada, na qual atividades aparentemente simples exigem conhecimentos de leitura e escrita para serem realizadas, a nossa metodologia de ensino tem o objetivo de trazer a esse aluno, que não teve acesso à escolarização ou precisou interromper seus estudos ao longo da vida, uma alfabetização funcional e que gera, a cada encontro, autonomia para resolver problemas cotidianos, como também, para minimizar sentimentos de dependência e exclusão”, explica.
Muitas pessoas desenvolvem estratégias para sobreviver em um mundo escrito. Pedem ajuda para identificar um endereço. Decoram o caminho até determinado lugar. Reconhecem embalagens pelas cores. Guardam documentos sem saber exatamente o que está escrito neles. Pedem a alguém de confiança para ler uma mensagem ou preencher um formulário. Por trás de cada dificuldade pode existir uma história marcada por desigualdades: a necessidade de trabalhar desde cedo, a falta de acesso à escola, a evasão escolar, a pobreza, a distância dos serviços educacionais ou uma trajetória escolar que não conseguiu garantir a aprendizagem necessária.
A leitura abre portas
A baiana Maria Helena Almeida, 58 anos, nasceu em Santa Cruz de Cabrália e hoje mora em Salvador, no bairro Barbalho. Mãe de três filhos, ela dedicou grande parte da vida ao sustento da família. Desde os 10 anos, trabalha com atividades ligadas à plantação e à cozinha, experiências que fizeram parte de uma trajetória marcada por muito esforço e pela necessidade de sobreviver.
Durante boa parte da vida, o estudo esteve distante da sua realidade. Sem pessoas que a orientassem sobre a importância da educação, Maria Helena precisou assumir responsabilidades muito cedo. Em diferentes momentos, precisou exercer sozinha os papéis de mãe e pai. Conta que chegou a sair de Brotas, onde morava, para trabalhar na Federação caminhando, por não ter dinheiro para pagar o transporte.
Hoje, Maria Helena é dona de casa e aluna do Curso de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Centro Universitário Estácio em Salvador. Está construindo uma nova relação com o estudo. Aos poucos, realiza o desejo de aprender a ler. A motivação veio principalmente dos filhos. “Foram eles que me impulsionaram a voltar a estudar para aprender a ler”, conta.
Ela convive com a fibromialgia e se locomove com o auxílio de muletas, mas isso não a impediu de iniciar uma nova etapa na vida. Para Maria Helena, aprender a ler representa muito mais do que adquirir uma nova habilidade. É possibilidade de autonomia, muitas descoberta e transformação. “Eu tive uma vida muito dura. Infelizmente, não tive pessoas para me orientar sobre a importância do estudo. Minha única missão era sobreviver.”
Ao olhar para a trajetória dos filhos, encontra também parte da força que a trouxe até aqui. Um deles já é formado e, o outro, está na universidade, conquistas que a encorajaram na decisão de voltar para a sala de aula. “Sou muito grata por essa oportunidade. A leitura é um abrir de portas na minha vida. A Estácio está sendo um grande suporte para mim”, afirma.
Diante de tantos cenários difíceis, cada palavra decifrada, cada mensagem compreendida e cada documento que passa a ser lido de forma independente representa uma conquista que ultrapassa os limites da sala de aula. “A alfabetização, nesse contexto, torna-se um instrumento de dignidade, pertencimento e transformação, reafirmando que nunca é tarde para aprender e que o acesso à leitura e à escrita é também uma forma de ampliar possibilidades e garantir o exercício pleno da cidadania”, conclui Laís Lira, coordenadora do programa.
Fonte: Frente & Verso Comunicação Integrada
Foto: Divulgação
