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Quando os filhos são usados para atingir a mãe: violência vicária exige atenção, alerta psicóloga Leila Tibiriçá

Dados do Ligue 180 registraram 7.064 denúncias de violência vicária em 2025; psicóloga Leila Tibiriçá explica como crianças e adolescentes podem ser usados como instrumento de controle em relações abusivas

A violência contra a mulher nem sempre termina com o rompimento de uma relação. Em muitos casos, mesmo após a separação, o agressor encontra nos filhos uma forma de manter controle, provocar sofrimento e prolongar a dinâmica de poder. Essa prática, conhecida como violência vicária, ocorre quando crianças e adolescentes são utilizados como meio de atingir emocionalmente a mãe.

Dados do Ligue 180, canal oficial de atendimento às mulheres em situação de violência, revelam a dimensão da violência vicária no Brasil. Em 2025, foram registradas 7.064 denúncias dessa forma de agressão, que ocorre quando o agressor utiliza filhos, parentes ou pessoas próximas como instrumento para causar sofrimento psicológico à mulher. O número corresponde a 4,55% do total de denúncias de violência contra mulheres recebidas pelo serviço no período. Já no primeiro trimestre de 2026, foram contabilizadas 3.552 denúncias de violência vicária, representando 7,77% dos registros de violência contra mulheres feitos pelo Ligue 180.

O cenário se soma a um quadro mais amplo de violência doméstica e familiar no Brasil. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025, revelou que 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. O levantamento também mostrou que, entre as agressões ocorridas nos últimos 12 meses, 71% aconteceram na presença de outras pessoas. Em cerca de 70% desses episódios havia crianças como testemunhas, muitas delas filhos ou filhas das vítimas, evidenciando como a violência contra a mulher também impacta diretamente o desenvolvimento emocional dos filhos.

Para a psicóloga clínica e jurídica Leila Tibiriçá de Carvalho, a violência vicária precisa ser compreendida como parte de um ciclo de controle e dominação que pode permanecer mesmo depois do fim do relacionamento.

Com mais de 20 anos de experiência, Leila Tibiriçá de Carvalho (@leilatibiricapsicologa) atua na interface entre Psicologia, Direito e relações familiares. Mestre em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador, palestrante e especialista em Psicologia Jurídica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, possui trajetória em projetos sociais voltados à prevenção e proteção de mulheres, crianças e adolescentes.

A especialista explica que, nesses casos, os filhos deixam de ser reconhecidos como sujeitos que precisam de proteção e passam a ocupar um lugar dentro do conflito dos adultos. Entre as situações que podem caracterizar esse tipo de violência estão ameaças envolvendo a guarda, tentativas de afastamento da mãe, manipulação emocional das crianças, desqualificação da figura materna e utilização de disputas judiciais como forma de perseguição.

“Quando a criança é colocada no centro de uma disputa entre os adultos, ela também sofre as consequências emocionais desse conflito. Filhos são seres humanos únicos, que precisam ser considerados nas suas características específicas, fase de desenvolvimento, necessidades e tempos distintos. Os filhos não devem ser instrumentos de vingança ou controle”, afirma Leila.

Segundo a psicóloga, um dos desafios está em identificar essa forma de violência, já que muitas situações aparecem inicialmente como conflitos familiares comuns, especialmente após separações. A diferença está na intenção de causar sofrimento, manter poder sobre a mulher ou prejudicar sua relação com os filhos.

A exposição contínua a esse ambiente pode gerar impactos emocionais em crianças e adolescentes, como insegurança, ansiedade, medo, dificuldades de relacionamento e prejuízos na construção de vínculos afetivos futuros. Para Leila, proteger os filhos implica em retirar crianças e adolescentes do papel de mediadores de conflitos dos adultos.
“Separações podem ser dolorosas, mas os adultos precisam preservar a responsabilidade que possuem enquanto pais. O fim da relação conjugal não pode significar o rompimento do cuidado e da proteção com os filhos”, destaca.

Fonte: Caroline Vilas Boas – Assessoria de Imprensa
Foto: Divulgação

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