O Mandato Popular das Águas, conduzido pela vereadora Eliete Paraguassu (PSOL), protocolou, na Câmara Municipal de Salvador, o Projeto de Indicação -163/2026, solicitando ao prefeito do município a decretação imediata de Situação de Emergência em Saúde Pública no território de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário. A medida foi apresentada como encaminhamento da Audiência Pública “Enfrentando o Racismo Ambiental, por Justiça e Reparação para a Comunidade de São Tomé de Paripe”, realizada no dia 23 de abril.
O documento protocolado pela parlamentar destaca que a comunidade vive um cenário contínuo e agravado de racismo ambiental e injustiça socioambiental, comprovado por estudos e relatórios produzidos por instituições como o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Federal da Bahia e o Ministério Público do Estado da Bahia. Os estudos apontam exposição prolongada da população a substâncias químicas como nitratos, nitritos, cobre e arsênio em níveis elevados e potencialmente tóxicos.
“Não estamos falando apenas de números ou relatórios. Estamos falando de vidas adoecidas, famílias ameaçadas e territórios feridos”, afirma Eliete. “O silêncio institucional também adoece. Decretar emergência em saúde pública é reconhecer a gravidade da crise e agir com a urgência que o povo merece”.
A vereadora defende que a decretação de emergência permitirá a adoção imediata de medidas intersetoriais, mobilização extraordinária de recursos financeiros e humanos, fortalecimento da vigilância em saúde, monitoramento ambiental contínuo e ampliação da assistência integral às famílias atingidas. Entre as ações propostas estão:
- Criação de Plano Emergencial Intersetorial;
- Monitoramento da água, solo e sedimentos;
- Realização de inquéritos epidemiológicos e toxicológicos;
- Atendimento multiprofissional à população exposta;
- Apoio socioeconômico emergencial às comunidades afetadas;
- Transparência ativa dos dados e participação popular da comunidade nas decisões.
O Mandato Popular das Águas reforça que o caso de São Tomé de Paripe representa mais um capítulo do histórico de desigualdade ambiental vivido por comunidades periféricas e tradicionais de Salvador, exigindo justiça socioambiental e reparação imediata.
Entenda o caso
Desde fevereiro de 2026, a comunidade de São Tomé de Paripe convive com manchas azuis e amarelas que aparecem nas poças formadas entre as pedras da praia quando a maré recua. O cheiro forte e o aspecto incomum da água chamaram atenção e motivaram investigações pela Polícia Civil e pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), que determinou a interdição temporária da praia.
A contaminação já impacta diretamente a saúde humana, com relatos de sintomas respiratórios, irritações na pele e problemas gastrointestinais entre moradores. Pescadores e marisqueiras também registram mortandade de peixes, mariscos e camarões, comprometendo a segurança alimentar de quem depende do mar para viver. O caso afeta especialmente pescadores artesanais, marisqueiras, permissionárias, ambulantes, comunidades negras e quilombolas tradicionais.
As investigações identificaram irregularidades relacionadas à operação do Terminal Itapuã, administrado pela empresa Intermarítima e especializado no manejo de granéis, minérios e fertilizantes. O terminal opera por meio de uma correia transportadora que leva cargas do mar até a área terrestre em Paripe. O INEMA concluiu, com base em resultados laboratoriais, que há compatibilidade entre o material encontrado na areia e os insumos manuseados pela empresa. O Ministério Público da Bahia recomendou a revisão e possível anulação da licença de operação do Terminal Itapuã, apontando falhas no licenciamento e riscos à saúde pública.
Fonte: Ascom ver Eliete Paraguassu – PSOL
Foto: Erlon Sousa
